8.6.09
Que as sombras que calçam a luz são pra deixar passar,
Que os medos que sobram são pra calar.
E são os sonhos que me acordam todos os dias,
São os sorrisos que me deixam á revelia,
E a força que eu tenho ninguém pode tirar.
E não são as mágoas que me fazem companhia,
Não vejo dores no sol de todo dia,
Não quero amores que me tragam utopia,
Não forço cores pra banhar a poesia.
Mas me resta uma vontade, um gosto, um porto,
Que contrai a cada verso uma corte, um alento,
Que ilumina as verdades, os momentos, a beleza,
Que sai de cada qual que se deixa imaginar.
E ouço esse silêncio, mas não o sinto pulsar.
Encaro o nada que vai a navegar,
Se tudo for que se deixe estar,
Assim, como o tudo que transforma o pensar.
E sejam bem vindas as surpresas que me competem,
As cartas, os dias, as novas idéias, o segredo de cada segundo.
Contando que me pertençam, contanto que nada seja apenas parcialmente meu.
Não quero restos, pedaços, frações, metades, divisões.
Que tudo mude sempre, para que se guarde incessantemente,
A vontade de nascer.
Mas que a descontinuidade não alimente qualquer possibilidade de largar de lado a vontade.
Não me quero lagrimar novamente.
Quero o som do vento a regar o pensamento,
A força a levantar por entre os mares,
A realidade que define o tempo,
As possibilidades do que seja bom.
Quero a marca da virada no castelo,
A beleza dos dias no encanto,
A energia que carrega um rio.
Quero tudo que seja real,
E quero que o teatro das ilusões seja o teatro das verdades,
Para que a lua que nos assiste todas as noites, sinta orgulho do que vê.
fim?
Me tira desse beco sem saída,
Me arranca desse beijo despedida.
Me mata um pouco de cada vez,
Que é sem sentir mesmo que eu gosto de viver.
E quando eu quero tudo aquilo ou nada disso,
É que eu me sinto levitar com o vento ao rosto.
Entorpece os dias,
Dizendo, decidindo por mim.
De fora pra dentro, que é pra não arrebentar.
Não me acho de tanto gosto,
Quando é de verso ao léu que me deixo ir.
Me deixo existir.
E a dor que eu sinto,
É por deixar de lado.
Fecha-se
Encerra-se em tantas cores, mas o silêncio permanece.
As palavras definham em segundos,
Falta coragem pra esclarecer certas frases...
Mesmo quando o acordo é não perder,
O medo levanta sua voz e se acanha ali no canto.
O receio se faz dito por dentre os silêncios,
E os momentos mais belos se calam.
Eu confesso: quero um dia sem medo.
Quero o real, o aperto.
Quero o gosto do carinho sem sossego.
Quero o desgaste, a energia.
Quero o rastro pingado da poesia.
E o quero na beleza de todo dia,
Assim, sem mais nem menos.
Sem promessas, sem fantasias.
Contanto que o medo vá dar voltas no poço do segredo.
Contanto que os sorrisos sejam sinceros, destemidos.
Lá longe o horizonte descia em uma curva só.
E essa curva bem que poderia tatear seus dedos.
Sentia na boca aquele vento,
E o gosto cego era o peito, a fronte, lábio, língua.
Estavam vivos, todos aqueles sons,
E o único momento surdo era o gotejar daquele céu.
Lavando tudo o que já não é.
Estavam todos á voar
E eis que batiam as asas todos de uma vez,
Como se aleijados, estivessem a voar sozinhos.
Andava pelas nuvens,
Com os pés encostando-se à grama,
Como que fazendo morada.
E se fosse tudo ou nada?
O mesmo peso
Era mesmo peso.
Olhando de lado,
Assim, debruçado,
Descansado na janela do porvir.
Era um novo gosto,
Que mudava todo o resto,
Fazia novo gesto,
Salgava a rouca voz.
E dava pra fingir que não tinha nada,
Nenhuma sombra assim deitada,
Nenhum pouco da vontade que escorre o verso.
Nenhum pouco da vontade que gera o gesto.
E de tanto não se falar nada era tudo um resto de nata,
E cheio de tanta verdade,
Senhor de qualquer vontade,
O silêncio foi fazendo morada.
Na beira da estrada já não tinha o nada,
Na porta da casa uma nesga de raiva,
No alto do cenho uma culpa sincera.
No resto de voz a realidade sossega.
A volta do giro calma a tempestade que desce,
A gota da gota amortece o vento que sopra,
E a coragem foi passear e ainda há sem volta.
Assim como a fraqueza que ameaça rasgar a trova.
Mas isso é só um novo meio pra mesma história,
Que sempre começa e termina sem jeito,
E sem surpresas, sem inovações,
Passa, deixando suas marcas no cimento da alma.
Até os sorrisos mudaram de tom.
Me pergunto se é mesmo preciso sorrir,
E as promessas para comigo mesma se tornam as mais difíceis de cumprir.
O rio e a casa
Não importa o que eu quisesse dizer, na margem daquele sentimento esquisito, aquele veneno que agia no corpo, mascarando a dor que queria saltar pelos olhos.
Era um rio enorme, mas não tinha correnteza. Tudo estava calmo. A casa ficava no meio do rio, no meio da casa tinha um jardim, e lá estava o rio de novo. Era uma casa antiga, dessas que permanecem de pé por milagre do destino.
Eu estava na casa, conhecendo seus segredos, analisando suas falhas, eu não queria de fato morar lá, mas pensava que se trocássemos o piso dava pra viver sem reclamar.
O rio incomodava de fato. Mas talvez a beleza da paisagem dissesse algo á seu favor.
Passeava pelo jardim, e os pés estavam imersos naquela água. Não era escura, e não chegava até o joelho. Vi algo verde passeando pela água. Não tive medo. Parecia uma cobra pequena.
A cobra passeava pela água, e vi outras cobras, eram muitas. O rio estava cheio delas. Meus pés já estavam na água. A adrenalina pulsava no corpo, e eu não podia me mexer. Me dei conta de que um homem estava no rio também. Ele não parecia ter medo. Estava calmo demais, aquilo não podia ser natural. Ele estava andando, eu queria dizer a ele que ficasse quieto. Mas não consegui mover os lábios.
Ele vinha em minha direção, parecia ser ignorado pelas cobras, que me cercavam e não se voltavam para trás.
Logo ele estava no meio delas. Como se estivesse no seu elemento, como se fosse senhor do rio. Uma cobra estava á frente de todas as outras, ela circulava ao meu redor. Não era um comportamento plausível para uma cobra. Algo estava muito errado. Eu podia sentir.
O homem estava a meio metro de distância. Ele agachou manteve os olhos na água. Ele observava a cobra circulando aos meus pés. Ele estendeu a mão, e pegou a cobra. Apertou-a logo abaixo da boca. A cobra mudou de cor. Ficou vermelha, como que em protesto. Ele apertava e a cobra foi ficando preta. Ele fitava meus olhos, como que quisesse dizer que estava tudo sobre controle, eu não acreditei nele. A cobra lutava pela liberdade, enquanto as outras cobras se dispersavam. Ele continuava a dizer silenciosamente que tudo estava bem.
O que aconteceu em seguida levou pouco mais de um segundo. A cobra ficou completamente preta, ela inchou e soltando-se, pulou na água novamente. O homem estava calmo. Disse que a cobra iria embora. Eu não acreditei. E eu tive ainda mais certeza quando vi a cobra voltando em minha direção. Eu perdi o controle do corpo e sucumbi ao leito de água. A cobra não hesitou, veio em direção á minha mão. Eu olhei o homem nos olhos, como que tentando decifrar porque o homem havia mentido. A cobra mordeu minha mão.
Eu não sentia medo. Apenas a dor.
Eu podia ver o homem ainda fitando meus olhos. Encarei-o, não havia arrependimento em seus olhos, não havia vida.
O homem era meu pai.
E então eu peguei impulso, e voei para longe, deixando o rio e a casa para trás, junto com a sua traição e as suas cores.
O piso permaneceria intacto.
Eu ficaria longe.
madrugada
Você sabe que algo está errado quando você precisa de café para ficar acordado e chá para conseguir dormir.
Quando o frio que você sente vem de dentro pra fora. Quando o calor que você precisa sumiu do mapa.
Quando você adoraria viver sozinho.
Quando você sente alívio de não ter que encontrar as pessoas. Quando você sente aquela liberdade de não ter que sorrir nem fazer social.
Mas na verdade você não sabe se algo está errado, se algo está começando a ficar certo ou se o único errado aqui é você.
Então você percebe que passa mais da metade do seu tempo em outro tempo. Essa história de limite espaço-temporal pra você é um problema. Você sente que aquilo que você fez ontem seria mais legal se ontem fosse hoje. E que se o futuro chegasse mais rápido também ia ser legal, mas o hoje é sempre uma coisa arrastada. Você acha que o ontem foi sacal, então, que bom que hoje já chegou. Mas o hoje parece só o meio. Tudo leva ao amanhã.
E as coisas mais legais de fazer são aquelas que provocam um distanciamento do mundo. Mas o tempo limitado que essas coisas tem para serem realizadas impede qualquer distanciamento. Eu queria que todos os relógios do mundo quebrassem. Mas isso também ia requerer um novo tipo de fruto para os pomares do mundo: dinheiro.
Então você sabe que tem mesmo algo errado. Você gostaria de um dia inteiro, sem social, sem obrigações, sem nada nem ninguém, só pra tirar algumas coisas á limpo consigo mesmo. Aquelas coisas que são necessárias para existir. Como em quem você confia e porque, quais são as suas motivações para continuar vivendo, o que você mais preza, qual a ordem de prioridade dos seus sonhos, porque você deve mesmo confiar nas pessoas para continuar existindo, porque tanta coisa dá errado, porque o que dá certo dá certo, porque você tem mais desejos e menos foco alternando com mais foco e menos desejos. Porque você não se sente bem em 500 ambientes, e porque você se sente bem em 500 outros que você não quer ir. Porque você quer andar com o vento, porque o sol é sempre mais importante, porque a lua seduz mais do que aquele garoto que tanto te quer, mas pra você ele vai continuar querendo, a não ser que ele faça uma plástica de personalidade. Porque as suas amigas estão sempre satisfeitas e com seus namorados felizes, e você tem 500 questionamentos sobre a vida que te levam a não estar satisfeita independente de que caras existam. E os seus amigos são muito queridos, mas nunca acompanham o seu humor, geralmente você acompanha o deles. Mas você também cansou disso.
E você se pega tendo uma conversa com você mesma no meio da madrugada. Porque o chá que costuma te dar sono não obteve sucesso com os seus nervos hoje.
Daí você encara o seguinte fato: talvez essas conversas comigo mesma fossem mais produtivas se algo não parecesse errado o tempo todo. Ou talvez, se algo estivesse certo, então a crise social não existiria. Ou, se você não achasse nada errado seria um vegetal. Mas mesmo se você fosse um vegetal você ainda teria opiniões quanto à preservação do meio-ambiente. Ou talvez, crises não devem ser produtivas mesmo. Claro que devem. As crises costumam ser provenientes de um fator contraproducente, resultado de um excesso de produção que desorganizou uma parte importante do seu sistema mental. Ou, não.
E você sabe que amanhã é segunda. Porque eles não levam embora os dias da semana também? Levaram embora as suas ilusões, o seu amor, a sua ingenuidade, a sua vontade de acreditar nas outras pessoas que habitam o planeta.. Ao menos você tem o seu gatinho, para gastar o estoque acumulado de carinho. Bom, eu não faço questão dos dias da semana. Juro. Ia adorar uma loucura atemporal.
Eu ia adorar mesmo a vontade de fazer alguma loucura. Vontade esta que eu não tenho. Assim como não tenho vontade de dar chance para aquele esquema duvidoso de amar. Não ta compensando não. Sexo casual não funciona comigo, eu preciso mesmo daquele negócio de amor, preciso muito mais do que preciso daquele outro negócio. Tenho que esperar um alienígena interessante ou não vai dar. Esses terráqueos não estão com nada. Acho que me trocaram de planeta. Definitivamente. Deve ser por isso que algo está muito errado.