Não importa o que eu quisesse dizer, na margem daquele sentimento esquisito, aquele veneno que agia no corpo, mascarando a dor que queria saltar pelos olhos.
Era um rio enorme, mas não tinha correnteza. Tudo estava calmo. A casa ficava no meio do rio, no meio da casa tinha um jardim, e lá estava o rio de novo. Era uma casa antiga, dessas que permanecem de pé por milagre do destino.
Eu estava na casa, conhecendo seus segredos, analisando suas falhas, eu não queria de fato morar lá, mas pensava que se trocássemos o piso dava pra viver sem reclamar.
O rio incomodava de fato. Mas talvez a beleza da paisagem dissesse algo á seu favor.
Passeava pelo jardim, e os pés estavam imersos naquela água. Não era escura, e não chegava até o joelho. Vi algo verde passeando pela água. Não tive medo. Parecia uma cobra pequena.
A cobra passeava pela água, e vi outras cobras, eram muitas. O rio estava cheio delas. Meus pés já estavam na água. A adrenalina pulsava no corpo, e eu não podia me mexer. Me dei conta de que um homem estava no rio também. Ele não parecia ter medo. Estava calmo demais, aquilo não podia ser natural. Ele estava andando, eu queria dizer a ele que ficasse quieto. Mas não consegui mover os lábios.
Ele vinha em minha direção, parecia ser ignorado pelas cobras, que me cercavam e não se voltavam para trás.
Logo ele estava no meio delas. Como se estivesse no seu elemento, como se fosse senhor do rio. Uma cobra estava á frente de todas as outras, ela circulava ao meu redor. Não era um comportamento plausível para uma cobra. Algo estava muito errado. Eu podia sentir.
O homem estava a meio metro de distância. Ele agachou manteve os olhos na água. Ele observava a cobra circulando aos meus pés. Ele estendeu a mão, e pegou a cobra. Apertou-a logo abaixo da boca. A cobra mudou de cor. Ficou vermelha, como que em protesto. Ele apertava e a cobra foi ficando preta. Ele fitava meus olhos, como que quisesse dizer que estava tudo sobre controle, eu não acreditei nele. A cobra lutava pela liberdade, enquanto as outras cobras se dispersavam. Ele continuava a dizer silenciosamente que tudo estava bem.
O que aconteceu em seguida levou pouco mais de um segundo. A cobra ficou completamente preta, ela inchou e soltando-se, pulou na água novamente. O homem estava calmo. Disse que a cobra iria embora. Eu não acreditei. E eu tive ainda mais certeza quando vi a cobra voltando em minha direção. Eu perdi o controle do corpo e sucumbi ao leito de água. A cobra não hesitou, veio em direção á minha mão. Eu olhei o homem nos olhos, como que tentando decifrar porque o homem havia mentido. A cobra mordeu minha mão.
Eu não sentia medo. Apenas a dor.
Eu podia ver o homem ainda fitando meus olhos. Encarei-o, não havia arrependimento em seus olhos, não havia vida.
O homem era meu pai.
E então eu peguei impulso, e voei para longe, deixando o rio e a casa para trás, junto com a sua traição e as suas cores.
O piso permaneceria intacto.
Eu ficaria longe.