14.10.08

Falo de Amor

E se você pudesse saber que a sua alma se lembra de tantas coisas...

Tantas, que a sua mente não denomina...

Como um passo que é por demais leve para tocar o chão, a singela sensação de poder pausar a gravidade e subir com todo pensamento até depois da curva do vento, onde os olhos não podem ver.

A intensidade que não respira assim com tanta voracidade em outro corpo se não for simultânea. A intensidade que assusta, acalma, entorpece. A intensidade que brota de onde não se sabe, e a partir de então doma toda partícula consciente que existe na mente. A intensidade que se esconde em tantas pessoas.

É por demais simples. O processo é simples. Mas o que é possível sentir, assim, de lado para si mesmo, é sempre imprevisível. É quando as palavras se estendem por todos os poros e se tornam sinceras como atitudes.

Achar o inimaginável uma possibilidade é um dom. Entregar-se é um dom. Respirar o outro é um dom. Manter promessas e acordos é um dom. Manter a palavra intacta da verdade é um dom. Autocontrole é um dom.

A felicidade provém desses dons.

E quando se reclama das dores do mundo, com seus tentáculos, domando nossas alegrias, nossa sinceridade, então se deixa a beleza dos dons para cultivar a dificuldade do desprazer provocado pelo medo. É quando abrigamos o desamor, com sua superficialidade densa e entorpecente, e nos dizemos que somos imunes ás dores.

Tudo têm seu preço. E existem condições que nos castram, nos entortam. Aceitar que o pouco que se têm é o muito que se pode ter é aceitar que o mundo não pode oferecer nada de melhor.

Abarrotar a coragem de viver com defesas e condições é silenciar a sinceridade e mantê-la trêmula, a se esconder de tudo.

Não se pode cobrar. Nunca pôde. E ainda assim, a realidade, por mais cruel e insossa é sempre melhor do que a ilusão adocicada, que nos levanta tão alto que a queda pode partir a alma no meio.

Mas é que o amor é tudo. O amor é maior dom, a maior dádiva, o melhor presente.

O amor é inesperado, adverso e revolto. O amor é infinitamente melhor que os vícios que o substituem. O Amor é mesmo tudo. E ele pode estar em todas as partes que permeiam uma existência, sem jamais falecer ou acabar. As pessoas podem irradiar amor mesmo quando não estão bem, mesmo quando não querem. A única regra é a sinceridade. Sem verdade não existe amor.


Quando eu falo de amor, falo do que me incendeia. Falo do que me domina, me nasce, me cria. Não falo de sedução. Falo desse outro tipo de interação, que é simples e forte.

Quando falo de amor, falo da cura do mundo. A cura que anda por dentro das pessoas, que ás aproxima como ímãs, que ás conecta e transforma.

Falo das coisas que quando parecem esquecidas, se provam mais fortes do que se deduz.

Falo de vontades que permanecem boas, não interessa o quanto foram corrompidas.

Falo de segundas chances. Falo da beleza que é eterna.

Falo do que permanece, do que não se destrói. Falo do que não se esquece.

Falo do amor que não é feito de areia. Falo do amor translúcido.

Falo do amor que mantém as pessoas unidas, e mesmo quando não se vêem se sentem.

Falo de poderes que eu não entendo. Da magia que existe no mundo, e que é o progresso que acontece em todos os lugares, por debaixo da pele.

Falo do que eu não controlo, do que me permeia e permeia a todos.

Falo de amor.

12.10.08

O calar-se dos sonhos

O silêncio escorria pelas paredes e o viés do encanto se calou. Eles sabiam o que era o riso, mas este se partiu no sarcasmo. Na pele se sentia o calado do toque. As mãos se chocavam com a mecânica das palavras, e, portanto, negavam-se.
As horas caminhavam, galopavam, mas os corpos partilhavam da sinceridade do não-sentir. A desistência de cada pedaço de sonho, pelo caráter infiel da realidade. Não era possível amar assim.
Existia um rachar dos sentidos. As rosas que cresciam nos jardins nada sabiam do desmoronar das idéias. O céu permanecia intacto. As pessoas caminhavam nas ruas, com seus egos, suas fantasias, seus mitos. Mas os nossos sentidos permaneciam ligados e partidos. Nos deliciávamos com os sonhos, até que eles se calaram para todo o sempre, e se debruçou sobre nós o incólume partido da verdade, colecionando os pedaços do que já não é.
E de tantos cacos, formou-se um mosaico de prós e contras, que se materializava ao ritmo dos ponteiros no relógio da sala. No encardido dos lençóis, no molhado das toalhas. No andar dos saltos do outro lado da parede.
Não se mantinham os disfarces, mas as fantasias permaneciam. Ficavam á espreita durante os encontros, sem nunca se consumar por completo. Afinal, um dia não haveria mais fantasia alguma, pois os sonhos cresciam por outros horizontes, e em breve aquele pequeno mundo, ainda que aconchegante, deixaria de existir.
A verdade surgia como um ser desconhecido, sempre prestes a ser desvendado. Mas que continuava a seduzir-nos com seus mistérios. Sempre que a verdade era séria e dilacerante, votávamos o rosto para o outro lado, e começávamos a procurar novamente.
A busca pela verdade seria infinita, até que os sonhos se consumissem por inteiro e calassem o indagar das almas. Até que tudo fosse perfeito, e não houvesse mais tremor e medo no inteiro dos mundos.
Até que o meu mundo se consumisse por inteiro de tanto sonhar, transformando a busca em eternidade. Pois que enquanto vivermos, o humano de nós continuará com suas perguntas e insatisfações, dançando pelos salões, deitando-se no chão, fantasiando tantos outros mundos, e mantendo as paredes silenciosas como o seu desencanto.
Pena que aderimos ao natural vai e vêm das situações. Agora a beleza se foi, os sonhos murcharam, e as rosas lá fora ainda reluzem com o orvalho do inverno. E ainda que o orvalho se transforme em chuva e acaricie nossos rostos com o tocar de suas mãos, e o calçar das idéias saia voando, mordiscando a pele da nuca com o poder visceral que banha os nossos corpos de suor, estaremos cansados demais para acreditar em qualquer coisa que não faça sentido. Permaneceremos calados, apenas cultivando outros tipos de sonhos: aqueles aos quais nos basta dormir para imaginar.