E se você pudesse saber que a sua alma se lembra de tantas coisas...
Tantas, que a sua mente não denomina...
Como um passo que é por demais leve para tocar o chão, a singela sensação de poder pausar a gravidade e subir com todo pensamento até depois da curva do vento, onde os olhos não podem ver.
A intensidade que não respira assim com tanta voracidade em outro corpo se não for simultânea. A intensidade que assusta, acalma, entorpece. A intensidade que brota de onde não se sabe, e a partir de então doma toda partícula consciente que existe na mente. A intensidade que se esconde em tantas pessoas.
É por demais simples. O processo é simples. Mas o que é possível sentir, assim, de lado para si mesmo, é sempre imprevisível. É quando as palavras se estendem por todos os poros e se tornam sinceras como atitudes.
Achar o inimaginável uma possibilidade é um dom. Entregar-se é um dom. Respirar o outro é um dom. Manter promessas e acordos é um dom. Manter a palavra intacta da verdade é um dom. Autocontrole é um dom.
A felicidade provém desses dons.
E quando se reclama das dores do mundo, com seus tentáculos, domando nossas alegrias, nossa sinceridade, então se deixa a beleza dos dons para cultivar a dificuldade do desprazer provocado pelo medo. É quando abrigamos o desamor, com sua superficialidade densa e entorpecente, e nos dizemos que somos imunes ás dores.
Tudo têm seu preço. E existem condições que nos castram, nos entortam. Aceitar que o pouco que se têm é o muito que se pode ter é aceitar que o mundo não pode oferecer nada de melhor.
Abarrotar a coragem de viver com defesas e condições é silenciar a sinceridade e mantê-la trêmula, a se esconder de tudo.
Não se pode cobrar. Nunca pôde. E ainda assim, a realidade, por mais cruel e insossa é sempre melhor do que a ilusão adocicada, que nos levanta tão alto que a queda pode partir a alma no meio.
Mas é que o amor é tudo. O amor é maior dom, a maior dádiva, o melhor presente.
O amor é inesperado, adverso e revolto. O amor é infinitamente melhor que os vícios que o substituem. O Amor é mesmo tudo. E ele pode estar em todas as partes que permeiam uma existência, sem jamais falecer ou acabar. As pessoas podem irradiar amor mesmo quando não estão bem, mesmo quando não querem. A única regra é a sinceridade. Sem verdade não existe amor.
Quando eu falo de amor, falo do que me incendeia. Falo do que me domina, me nasce, me cria. Não falo de sedução. Falo desse outro tipo de interação, que é simples e forte.
Quando falo de amor, falo da cura do mundo. A cura que anda por dentro das pessoas, que ás aproxima como ímãs, que ás conecta e transforma.
Falo das coisas que quando parecem esquecidas, se provam mais fortes do que se deduz.
Falo de vontades que permanecem boas, não interessa o quanto foram corrompidas.
Falo de segundas chances. Falo da beleza que é eterna.
Falo do que permanece, do que não se destrói. Falo do que não se esquece.
Falo do amor que não é feito de areia. Falo do amor translúcido.
Falo do amor que mantém as pessoas unidas, e mesmo quando não se vêem se sentem.
Falo de poderes que eu não entendo. Da magia que existe no mundo, e que é o progresso que acontece em todos os lugares, por debaixo da pele.
Falo do que eu não controlo, do que me permeia e permeia a todos.
Falo de amor.