Tive vontade de expressar toda a minha falta de apreço pelo machismo, afinal, tenho vivido com ele sob o mesmo teto durante toda a minha vida. Quando vejo homens falando que mulheres são complicadas fico pensando se um homem tem ideia do que é nascer mulher, se um homem tem ideia que as demandas nas quais fomos criadas são absolutamente diversas. Vou resumir assim: desde a mais tenra idade, o homem é criado para fazer o que quer, e a mulher é criada para fazer o esperado. Isso por si só já acaba com metade da tranquilidade e segurança de uma mulher, possivelmente durante a maior parte da sua vida adulta.
Como professora do ensino infantil, pude observar meninos e meninas durante o desenvolvimento do seu intelecto e personalidade, e, algumas diferenças básicas de personalidade podem ser observadas: a partir dos três ou quatro anos de idade, e as vezes até antes, as meninas são visivelmente mais empáticas e mais dóceis do que os meninos. Enquanto as meninas são empáticas, os meninos aparentam um conforto maior com situações nas quais tem que impor seus desejos. Isso é bom para os educadores, porque afinal, imagina uma turma inteira de crianças não dóceis, não empáticas e com desejos e vontades pouco flexíveis? Acho que iriamos rapidamente desistir de ensinar. Mas o fato de essas diferenças serem claras em tão tenra idade já apontam diferenças cruciais durante toda a vida.
Voltando ao meu simplismo: homens são criados para fazer o que querem e mulheres para fazer o que é esperado delas. Quando um educador chama a atenção de uma menina, em algum lugar dentro dela ela sente vontade de ceder e agradar. Uma sequencia de situações nas quais a menina é recompensada com agrados, carinhos e presentes quando se comporta bem, acaba por resultar em uma mulher que quer ser perfeita, que coloca o desejo de agradar acima das suas próprias necessidades. Eu duvido que exista uma mulher no mundo que nunca tenha se deparado com uma situação na qual o que é esperado dela é diferente do que ela quer e que tenha acabado por escolher a primeira opção, sem nem saber por que. E depois não tenha pensado: “Mas por que eu fiz isso? Eu nunca quis isso.”
De mulher para mulher existem diferenças de criação? Com certeza. Mas alguém, durante todo o processo de formação de uma criança, com certeza fez questão de tentar ou conseguir ‘educar’ uma menina da maneira ‘correta’. Quantas mães não falam com orgulho de suas filhas: minha filha faz tudo (eu não sei como ela consegue) ela estuda, tira as melhores notas, tem um namorado, é cheia de amigos, faz tudo que pedimos a ela, é muito educada, eu nunca vi a minha filha tratar ninguém mal, ou ser grosseira com ninguém. Ok, muitas de nós somos assim, damos conta do possível e do impossível, relevamos e até nos empenhamos para o que é esperado de nós. Uma mulher que faz tudo o que é esperado dela vive na ilusão de que é amada pelo que ela faz e não pelo que ela é. Isso gera uma série de problemas.
Qual homem nunca viu uma mulher fazer uma coisa e querer outra? De forma que fica parecendo que a mulher em questão não sabe o que quer e que vive mudando de ideia? Possivelmente ela é tomada por louca. E quantos homens não acham que todas as mulheres têm comportamentos desse tipo? Eu concordo. E digo mais: as mulheres que são ambíguas em suas ações estão em constante briga interna. Faço o que eu quero ou o que ele quer? Faço o que eu quero ou o que a minha mãe quer? Faço o que eu quero ou o que o meu chefe quer? E as vezes, essas mesmas mulheres não consideram a possibilidade de fazer o que elas querem. Ou pensam que não tem vontades específicas quanto a determinados assuntos. O condicionamento foi efetivo. Elas foram tão bem educadas que não respeitam suas próprias vontades e desejos.
Exemplo: uma mulher deixa a carreira de lado para cuidar dos filhos, porque acha que esse é o seu papel, que ela tem que ser responsável pela educação dos filhos sozinha. Porque ela acha isso? Porque o pai dos filhos dela, por sua vez, foi criado para fazer o que quer, e não vai ceder e voltar tarde do trabalho e ficar com responsabilidades que não precisam ser dele. No caso, a mulher vive a sua vida para os filhos, e no futuro vai esperar que seus filhos demonstrem a mesma devoção por ela – o que não vai acontecer. Outro exemplo, uma mulher quer escolher sua carreira e escolhe o curso que os pais indicam em detrimento do que ela quer fazer. Um homem pode fazer isso também? Pode. Nada impede que um homem também tenha sido bem ‘educado’ para fazer o esperado. Mas no somatório das situações o homem não é absolutamente condicionado para fazer o esperado. Em algum momento o homem encontra modelos masculinos que fazem com que suas vontades sejam respeitadas, ou modelos femininos que servem e satisfazem as suas vontades.
Mas vamos voltar ao machismo. Grande parte das pessoas responsáveis por cuidar e educar crianças são mulheres. É caracteristicamente uma profissão procurada por mulheres, existem homens na profissão, mas a quantidade de mulheres é maior. Culturalmente, mães se acham mais responsáveis na categoria de cuidadoras de seus filhos, ou contratam babás, também do sexo feminino. Durante a infância, na qual muitos psicólogos concordam que é onde a personalidade adquire suas principais características, as crianças tem maior contato, no dia a dia de suas vidas, de modo geral, com mulheres.
Então porque as mulheres colocam a culpa do machismo nos homens? O machismo pode ser reforçado por homens, cultuado por homens e mantido por homens. Mas o machismo em seu princípio é perpetuado de geração em geração pelas mulheres. Se alguma mulher quiser me bater neste momento, eu compreendo. Mas são as próprias mulheres, tendo sido condicionadas para não obedecer e respeitar seus desejos mais íntimos, que conseguem criar seus filhos de forma diferente de suas filhas. Que aceitam situações diversas de seus filhos, assim como aceitam de seus maridos. Mas que não encorajam suas filhas a descobrir quem são, e que, por meio do condicionamento no qual elas mesmas foram criadas, permitem que suas filhas se sintam culpadas quando não fazem o que é esperado delas. Criam assim um ciclo que culpa que se renova de situação em situação. Mulheres que fazem tudo pelos outros para garantir serem amadas e bem quistas. Mas como essa garantia não existe para ninguém, a frustração traz à tona mulheres partidas, que não conseguem se reanimar, pois foram enganadas desde o princípio. Assumiram o que foi esperado em detrimento do que queriam, para no fim das contas não receber nada em troca. Não existe nenhuma mulher no mundo que não tenha passado por uma situação dessa ao menos uma vez, e se ela existe, por favor, quero conhece-la. Homens passam por isso? Talvez sim, talvez não. Mas na minha humilde opinião, mulheres passam por isso todos os dias. A cada escolha uma mulher bem resolvida tem que se perguntar “se eu fizer isso, vai ser porque eu quero ou porque alguém quer?” e “se eu topar fazer isso que a outra pessoa quer que eu faça, eu estou topando porque não tem problema, ou porque espero ganhar alguma recompensa por isso?”. Essas coisas acontecem com pessoas em geral? Não só mulheres? Talvez sim, talvez não. Mas posso afirmar que acontece com as mulheres mais do que deveria. Chegando a ser patológico. E mesmo uma mulher que respeita suas vontades precisa fazer escolhas racionalmente, pois corre o risco de deixar o barco correr e perceber que se tornou submissa.
Mas isso é de fato machismo? Essa síndrome da perfeição feminina é a essência do machismo. Porque difere radicalmente da forma como funciona a persona masculina, na qual seus desejos devem ser respeitados doa a quem doer, o que resulta em homens mais felizes com suas escolhas, afinal, foram de fato suas escolhas. A frustração masculina existe quando o homem não consegue o que quer, ou não sabe o que quer, ou tem medo de assumir o que quer. A mulher tem medo de querer e ponto. O que vão dizer as pessoas? Será que elas vão me amar se eu fizer o que eu quiser? Será que eu ainda serei uma boa mulher se eu fizer isso? Como se toda e qualquer situação colocasse o seu “eu” em cheque. O homem aceita o que ele quer. Respeita o que ele quer. Se alguém quiser que ele faça diferente, azar. Isso é ótimo. Bato palmas. Nós mulheres temos muito a aprender com os homens, por que a eles, foi dada a escolha de ser desde o princípio. Em suma, nós mulheres temos que racionalizar nossas escolhas e mudar nossas opiniões do que devemos ser para o que queremos ser o quanto antes, para não correr o risco de perpetuar a maneira como fomos ‘educadas’. É limitante pensar que não podemos ser perfeitas? Sim. Mas é também uma ilusão pensar que podemos fazer o que os outros querem e ser de fato felizes. O homem aceita que o que ele quer e o que ele é só pode ser perfeito, porque é seu. A mulher aceita que o que ela quer tem que caber no que os outros querem, e aí sim, se limita a agradar.