5.7.09
Utopia
Um lugar que seria belo, se já não fosse irreal. Se não fosse tão frágil.
Sim, guardávamos por demais a fragilidade imersa em nosso pensar.
E por isso mesmo parecíamos ainda mais delicados.
Quebrantados a qualquer desvio.
Até que descobrimos ser intensos, fortes.
Se o lugar fora irreal de fato, já não se sabia, nem interessava.
É que a possibilidade de um lugar sincero tornava a fragilidade uma força imensurável.
Uma força capaz de manipular todas as energias do universo.
Se fechássemos os olhos, o tal lugar seria uma galáxia, daquelas que possuem milhares de cores, todas refletidas no espelho que temos na mente.
Mas se por descuido estivéssemos presos nesse lugar disperso, maleável, honesto, então a irrealidade nos deixaria cegos, perdidos em meio á algo muito grande e desconhecido.
Se nos perguntássemos de onde provêm os sonhos,
A resposta diria que essa galáxia luminosa é uma fábrica de sonhos.
Seriam os sonhos capazes de mentir?
Idealizar e imaginar jamais serão como mentir.
Afinal, o homem se compraz na utopia
Mas a realidade, sonhando,
Acabaria por admitir que naquele lugar fôssemos reais pela primeira vez.
8.6.09
Que as sombras que calçam a luz são pra deixar passar,
Que os medos que sobram são pra calar.
E são os sonhos que me acordam todos os dias,
São os sorrisos que me deixam á revelia,
E a força que eu tenho ninguém pode tirar.
E não são as mágoas que me fazem companhia,
Não vejo dores no sol de todo dia,
Não quero amores que me tragam utopia,
Não forço cores pra banhar a poesia.
Mas me resta uma vontade, um gosto, um porto,
Que contrai a cada verso uma corte, um alento,
Que ilumina as verdades, os momentos, a beleza,
Que sai de cada qual que se deixa imaginar.
E ouço esse silêncio, mas não o sinto pulsar.
Encaro o nada que vai a navegar,
Se tudo for que se deixe estar,
Assim, como o tudo que transforma o pensar.
E sejam bem vindas as surpresas que me competem,
As cartas, os dias, as novas idéias, o segredo de cada segundo.
Contando que me pertençam, contanto que nada seja apenas parcialmente meu.
Não quero restos, pedaços, frações, metades, divisões.
Que tudo mude sempre, para que se guarde incessantemente,
A vontade de nascer.
Mas que a descontinuidade não alimente qualquer possibilidade de largar de lado a vontade.
Não me quero lagrimar novamente.
Quero o som do vento a regar o pensamento,
A força a levantar por entre os mares,
A realidade que define o tempo,
As possibilidades do que seja bom.
Quero a marca da virada no castelo,
A beleza dos dias no encanto,
A energia que carrega um rio.
Quero tudo que seja real,
E quero que o teatro das ilusões seja o teatro das verdades,
Para que a lua que nos assiste todas as noites, sinta orgulho do que vê.
fim?
Me tira desse beco sem saída,
Me arranca desse beijo despedida.
Me mata um pouco de cada vez,
Que é sem sentir mesmo que eu gosto de viver.
E quando eu quero tudo aquilo ou nada disso,
É que eu me sinto levitar com o vento ao rosto.
Entorpece os dias,
Dizendo, decidindo por mim.
De fora pra dentro, que é pra não arrebentar.
Não me acho de tanto gosto,
Quando é de verso ao léu que me deixo ir.
Me deixo existir.
E a dor que eu sinto,
É por deixar de lado.
Fecha-se
Encerra-se em tantas cores, mas o silêncio permanece.
As palavras definham em segundos,
Falta coragem pra esclarecer certas frases...
Mesmo quando o acordo é não perder,
O medo levanta sua voz e se acanha ali no canto.
O receio se faz dito por dentre os silêncios,
E os momentos mais belos se calam.
Eu confesso: quero um dia sem medo.
Quero o real, o aperto.
Quero o gosto do carinho sem sossego.
Quero o desgaste, a energia.
Quero o rastro pingado da poesia.
E o quero na beleza de todo dia,
Assim, sem mais nem menos.
Sem promessas, sem fantasias.
Contanto que o medo vá dar voltas no poço do segredo.
Contanto que os sorrisos sejam sinceros, destemidos.
Lá longe o horizonte descia em uma curva só.
E essa curva bem que poderia tatear seus dedos.
Sentia na boca aquele vento,
E o gosto cego era o peito, a fronte, lábio, língua.
Estavam vivos, todos aqueles sons,
E o único momento surdo era o gotejar daquele céu.
Lavando tudo o que já não é.
Estavam todos á voar
E eis que batiam as asas todos de uma vez,
Como se aleijados, estivessem a voar sozinhos.
Andava pelas nuvens,
Com os pés encostando-se à grama,
Como que fazendo morada.
E se fosse tudo ou nada?
O mesmo peso
Era mesmo peso.
Olhando de lado,
Assim, debruçado,
Descansado na janela do porvir.
Era um novo gosto,
Que mudava todo o resto,
Fazia novo gesto,
Salgava a rouca voz.
E dava pra fingir que não tinha nada,
Nenhuma sombra assim deitada,
Nenhum pouco da vontade que escorre o verso.
Nenhum pouco da vontade que gera o gesto.
E de tanto não se falar nada era tudo um resto de nata,
E cheio de tanta verdade,
Senhor de qualquer vontade,
O silêncio foi fazendo morada.
Na beira da estrada já não tinha o nada,
Na porta da casa uma nesga de raiva,
No alto do cenho uma culpa sincera.
No resto de voz a realidade sossega.
A volta do giro calma a tempestade que desce,
A gota da gota amortece o vento que sopra,
E a coragem foi passear e ainda há sem volta.
Assim como a fraqueza que ameaça rasgar a trova.
Mas isso é só um novo meio pra mesma história,
Que sempre começa e termina sem jeito,
E sem surpresas, sem inovações.
Passa, deixando suas marcas no cimento da alma.
Até os sorrisos mudaram de tom.
Me pergunto se é mesmo preciso sorrir,
E as promessas para comigo mesma se tornam as mais difíceis de cumprir.
O rio e a casa
Não importa o que eu quisesse dizer, na margem daquele sentimento esquisito, aquele veneno que agia no corpo, mascarando a dor que queria saltar pelos olhos.
Era um rio enorme, mas não tinha correnteza. Tudo estava calmo. A casa ficava no meio do rio, no meio da casa tinha um jardim, e lá estava o rio de novo. Era uma casa antiga, dessas que permanece de pé por milagre do destino.
Eu estava na casa, conhecendo seus segredos, analisando suas falhas, eu não queria de fato morar lá, mas pensava que se trocássemos o piso dava pra viver sem reclamar.
O rio incomodava de fato. Mas talvez a beleza da paisagem dissesse algo á seu favor.
Passeava pelo jardim, e os pés estavam imersos naquela água. Não era escura, e não chegava até o joelho. Vi algo verde passeando pela água. Não tive medo. Parecia uma cobra pequena.
A cobra passeava pela água, e vi outras cobras, eram muitas. O rio estava cheio delas. Meus pés já estavam na água. A adrenalina pulsava no corpo, e eu não podia me mexer. Me dei conta de que um homem estava no rio também. Ele não parecia ter medo. Estava calmo demais, aquilo não podia ser natural. Ele estava andando, eu queria dizer a ele que ficasse quieto. Mas não consegui mover os lábios.
Ele vinha em minha direção, parecia ser ignorado pelas cobras, que me cercavam e não se voltavam para trás.
Logo ele estava no meio delas. Como se estivesse no seu elemento, como se fosse senhor do rio. Uma cobra estava á frente de todas as outras, ela circulava ao meu redor. Não era um comportamento plausível para uma cobra. Algo estava muito errado. Eu podia sentir.
O homem estava a meio metro de distância. Ele agachou manteve os olhos na água. Ele observava a cobra circulando aos meus pés. Ele estendeu a mão, e pegou a cobra. Apertou-a logo abaixo da boca. A cobra mudou de cor. Ficou vermelha, como que em protesto. Ele apertava e a cobra foi ficando preta. Ele fitava meus olhos, como que quisesse dizer que estava tudo sobre controle, eu não acreditei nele. A cobra lutava pela liberdade, enquanto as outras cobras se dispersavam. Ele continuava a dizer silenciosamente que tudo estava bem.
O que aconteceu em seguida levou pouco mais de um segundo. A cobra ficou completamente preta, ela inchou e soltando-se, pulou na água novamente. O homem estava calmo. Disse que a cobra iria embora. Eu não acreditei. E eu tive ainda mais certeza quando vi a cobra voltando em minha direção. Eu perdi o controle do corpo e sucumbi ao leito de água. A cobra não hesitou, veio em direção á minha mão. Eu olhei o homem nos olhos, como que tentando decifrar porque o homem havia mentido. A cobra mordeu minha mão.
Eu não sentia medo. Apenas a dor.
Eu podia ver o homem ainda fitando meus olhos. Encarei-o, não havia arrependimento em seus olhos, não havia vida.
O homem era meu pai.
E então eu peguei impulso, e voei para longe, deixando o rio e a casa para trás, junto com a sua traição e as suas cores.
O piso permaneceria intacto.
Eu ficaria longe.
madrugada
Você sabe que algo está errado quando você precisa de café para ficar acordado e chá para conseguir dormir.
Quando o frio que você sente vem de dentro pra fora. Quando o calor que você precisa sumiu do mapa.
Quando você adoraria viver sozinho.
Quando você sente alívio de não ter que encontrar as pessoas. Quando você sente aquela liberdade de não ter que sorrir nem fazer social.
Mas na verdade você não sabe se algo está errado, se algo está começando a ficar certo ou se o único errado aqui é você.
Então você percebe que passa mais da metade do seu tempo em outro tempo. Essa história de limite espaço-temporal pra você é um problema. Você sente que aquilo que você fez ontem seria mais legal se ontem fosse hoje. E que se o futuro chegasse mais rápido também ia ser legal, mas o hoje é sempre uma coisa arrastada. Você acha que o ontem foi sacal, então, que bom que hoje já chegou. Mas o hoje parece só o meio. Tudo leva ao amanhã.
E as coisas mais legais de fazer são aquelas que provocam um distanciamento do mundo. Mas o tempo limitado que essas coisas tem para serem realizadas impede qualquer distanciamento. Eu queria que todos os relógios do mundo quebrassem. Mas isso também ia requerer um novo tipo de fruto para os pomares do mundo: dinheiro.
Então você sabe que tem mesmo algo errado. Você gostaria de um dia inteiro, sem social, sem obrigações, sem nada nem ninguém, só pra tirar algumas coisas á limpo consigo mesmo. Aquelas coisas que são necessárias para existir. Como em quem você confia e porque, quais são as suas motivações para continuar vivendo, o que você mais preza, qual a ordem de prioridade dos seus sonhos, porque você deve mesmo confiar nas pessoas para continuar existindo, porque tanta coisa dá errado, porque o que dá certo dá certo, porque você tem mais desejos e menos foco alternando com mais foco e menos desejos. Porque você não se sente bem em 500 ambientes, e porque você se sente bem em 500 outros que você não quer ir. Porque você quer andar com o vento, porque o sol é sempre mais importante, porque a lua seduz mais do que aquele garoto que tanto te quer, mas pra você ele vai continuar querendo, a não ser que ele faça uma plástica de personalidade. Porque as suas amigas estão sempre satisfeitas e com seus namorados felizes, e você tem 500 questionamentos sobre a vida que te levam a não estar satisfeita independente de que caras existam. E os seus amigos são muito queridos, mas nunca acompanham o seu humor, geralmente você acompanha o deles. Mas você também cansou disso.
E você se pega tendo uma conversa com você mesma no meio da madrugada. Porque o chá que costuma te dar sono não obteve sucesso com os seus nervos hoje.
Daí você encara o seguinte fato: talvez essas conversas comigo mesma fossem mais produtivas se algo não parecesse errado o tempo todo. Ou talvez, se algo estivesse certo, então a crise social não existiria. Ou, se você não achasse nada errado seria um vegetal. Mas mesmo se você fosse um vegetal você ainda teria opiniões quanto à preservação do meio-ambiente. Ou talvez, crises não devem ser produtivas mesmo. Claro que devem. As crises costumam ser provenientes de um fator contraproducente, resultado de um excesso de produção que desorganizou uma parte importante do seu sistema mental. Ou, não.
E você sabe que amanhã é segunda. Porque eles não levam embora os dias da semana também? Levaram embora as suas ilusões, o seu amor, a sua ingenuidade, a sua vontade de acreditar nas outras pessoas que habitam o planeta.. Ao menos você tem o seu gatinho, para gastar o estoque acumulado de carinho. Bom, eu não faço questão dos dias da semana. Juro. Ia adorar uma loucura atemporal.
Eu ia adorar mesmo a vontade de fazer alguma loucura. Vontade esta que eu não tenho. Assim como não tenho vontade de dar chance para aquele esquema duvidoso de amar. Não ta compensando não. Sexo casual não funciona comigo, eu preciso mesmo daquele negócio de amor, preciso muito mais do que preciso daquele outro negócio. Tenho que esperar um alienígena interessante ou não vai dar. Esses terráqueos não estão com nada. Acho que me trocaram de planeta. Definitivamente. Deve ser por isso que algo está muito errado.
15.4.09
Aquele rompante de sentimento,
A causa das fontes que jorram alento,
O mistério dos rostos,
A crise do pensamento.
Precisar é de fato um tato,
Que desperto calma o rosnar do peito,
O sentido é tudo de nada um pouco,
Rasgando o que pode ser rasgado,
Na memória o gás do estilo,
Traçando as linhas,
À velocidade do vento.
São teus os olhos que vejo á pálpebras cerradas,
As mãos que só fazem sentido na luz das idéias,
Os diálogos comigo mesma,
A penumbra que paira á luz do dia.
Me cala.
Liberta.
O abrigo é o peito, meu, teu, de quem for.
Me cala.
1.3.09
Confesso que conheço pouco do mundo,
Vez em quando, a ingenuidade ainda me aparece.
Mas é que eu tenho um pequeno desejo de saber se a ignorância é mesmo uma bênção.
Acho que eu nunca saberei agora.
Minha consciência diz que as pequenas ignorâncias que eu cultivo são relativas a pessoas e tópicos que não me atraem.
Se é uma bênção deixar de conhecer certas pessoas ou assuntos, eu jamais saberei, a não ser que um dia a ignorância deseje se ausentar da minha vida.
É assim que funciona a ignorância.
Mas existem situações, pequenos ou grandes eventos, relações, ideias, que vão descortinando ilusões.
Dar por terra uma ilusão que foi nutrida e cultivada a vida inteira dói, rasga, mata.
E aí vamos ao luto. Sim, luto. A ilusão morreu, e o luto ficou.
São momentos em que você desejaria voltar no tempo e ser ignorante novamente.
Eu confesso, o luto que agora passeia pelo meu pensamento, faz de mim uma pessoa menos intensa.
Não pense que estou sendo dramática, mas é a que a ignorância da minha intensidade foi diluída em tantas situações que já não me atrevo a lembrar.
Era tão mais simples, quando eu podia me iludir. Mas a percepção que eu desenvolvi agora mudou cada peça de lugar, e eu estou com medo de perder o jogo.
Então eu parei de jogar.
É difícil não ser ignorante, mas acho que isso é crescer por dentro.
Expandir.
E cada dia que passa me apresenta a um lado diferente da ilusão que acabei de perder.
Quando penso em não ignorar, sinto que devo temer os lugares escuros onde a minha ingenuidade sobrepõe a ignorância. Mas eu suponho que algumas ilusões foram tão firmemente inseridas no meu pensar que nem com todo o sofrimento do mundo eu poderia ser livre.
Não me entenda mal, mas eu queria viver no mundo dos fortes. É que ainda me entristece que nem todos possam ser fortes para fazer escolhas e aceitar as consequências com responsabilidade. Iludem-me, a fraqueza e a covardia das pessoas, quando ignoro sua existência.
E é por isso que eu, com todas as minhas certezas só posso ser muito ignorante.
19.12.08
Idéias
Compreender o impensável,
Inimaginável silêncio dos pesares.
Decifrar castelos, idéias, altares,
Codificar os sonhos, despertos, risonhos,
Simbolizar desejos, nos versos, desertos.
Comemorar singelos os belos reversos,
Admirar o passeio pelos avessos,
Anoitecer o discreto das cores, abraços,
Comunicar nos palcos, que sejam sagrados.
Disseram ser loucura o gosto, reverso,
Instigaram a fome, na pele, nas mãos,
E calaram-se as preces, alturas, cometas,
Imaginando a sede, de tudo, de nada.
Resgataram o que se chama dor,
Para lembrar que em si, não é por demais um calo,
No verso do sapato,
Comemorando o tato que se chama coração.
Silêncio
A cor do céu que instiga maravilhas se calou hoje em toda poesia.
Se existisse inverno nesse lado da apatia, seria calado então na palma da alegria.
O sol, que agora inexistia, partiu-me em vinte léguas, o silêncio então dormia.
E as cidades se calaram, de mãos falantes, punhos cegos, euforias.
As mãos eram o ditado, alegoria.
Os punhos, meras hastes dizendo o que queriam.
Era dia de balançar as palavras, para ver se o silêncio se mexia.
Mas eis que ele lançava sua calma, em clara sintonia, e me derreteu a alma sem calar sua existência.
O que fazer com tamanha simpatia?
Uma alma calada, não verte poesia.
Mas a noite com suas traças enfim caia, e a voz pôde, mais uma vez, cantar sua euforia.
Descobri então que o silêncio sempre fora minha sina, e com suas mãos firmes me prendia dia, noite, acontecia.
Mas não era simples o calço em demasia, as noites sempre serão vozes em meio á mãos vazias.
14.10.08
Falo de Amor
E se você pudesse saber que a sua alma se lembra de tantas coisas...
Tantas, que a sua mente não denomina...
Como um passo que é por demais leve para tocar o chão, a singela sensação de poder pausar a gravidade e subir com todo pensamento até depois da curva do vento, onde os olhos não podem ver.
A intensidade que não respira assim com tanta voracidade em outro corpo se não for simultânea. A intensidade que assusta, acalma, entorpece. A intensidade que brota de onde não se sabe, e a partir de então doma toda partícula consciente que existe na mente. A intensidade que se esconde em tantas pessoas.
É por demais simples. O processo é simples. Mas o que é possível sentir, assim, de lado para si mesmo, é sempre imprevisível. É quando as palavras se estendem por todos os poros e se tornam sinceras como atitudes.
Achar o inimaginável uma possibilidade é um dom. Entregar-se é um dom. Respirar o outro é um dom. Manter promessas e acordos é um dom. Manter a palavra intacta da verdade é um dom. Autocontrole é um dom.
A felicidade provém desses dons.
E quando se reclama das dores do mundo, com seus tentáculos, domando nossas alegrias, nossa sinceridade, então se deixa a beleza dos dons para cultivar a dificuldade do desprazer provocado pelo medo. É quando abrigamos o desamor, com sua superficialidade densa e entorpecente, e nos dizemos que somos imunes ás dores.
Tudo têm seu preço. E existem condições que nos castram, nos entortam. Aceitar que o pouco que se têm é o muito que se pode ter é aceitar que o mundo não pode oferecer nada de melhor.
Abarrotar a coragem de viver com defesas e condições é silenciar a sinceridade e mantê-la trêmula, a se esconder de tudo.
Não se pode cobrar. Nunca pôde. E ainda assim, a realidade, por mais cruel e insossa é sempre melhor do que a ilusão adocicada, que nos levanta tão alto que a queda pode partir a alma no meio.
Mas é que o amor é tudo. O amor é maior dom, a maior dádiva, o melhor presente.
O amor é inesperado, adverso e revolto. O amor é infinitamente melhor que os vícios que o substituem. O Amor é mesmo tudo. E ele pode estar em todas as partes que permeiam uma existência, sem jamais falecer ou acabar. As pessoas podem irradiar amor mesmo quando não estão bem, mesmo quando não querem. A única regra é a sinceridade. Sem verdade não existe amor.
Quando eu falo de amor, falo do que me incendeia. Falo do que me domina, me nasce, me cria. Não falo de sedução. Falo desse outro tipo de interação, que é simples e forte.
Quando falo de amor, falo da cura do mundo. A cura que anda por dentro das pessoas, que ás aproxima como ímãs, que ás conecta e transforma.
Falo das coisas que quando parecem esquecidas, se provam mais fortes do que se deduz.
Falo de vontades que permanecem boas, não interessa o quanto foram corrompidas.
Falo de segundas chances. Falo da beleza que é eterna.
Falo do que permanece, do que não se destrói. Falo do que não se esquece.
Falo do amor que não é feito de areia. Falo do amor translúcido.
Falo do amor que mantém as pessoas unidas, e mesmo quando não se vêem se sentem.
Falo de poderes que eu não entendo. Da magia que existe no mundo, e que é o progresso que acontece em todos os lugares, por debaixo da pele.
Falo do que eu não controlo, do que me permeia e permeia a todos.
Falo de amor.
12.10.08
O calar-se dos sonhos
As horas caminhavam, galopavam, mas os corpos partilhavam da sinceridade do não-sentir. A desistência de cada pedaço de sonho, pelo caráter infiel da realidade. Não era possível amar assim.
Existia um rachar dos sentidos. As rosas que cresciam nos jardins nada sabiam do desmoronar das idéias. O céu permanecia intacto. As pessoas caminhavam nas ruas, com seus egos, suas fantasias, seus mitos. Mas os nossos sentidos permaneciam ligados e partidos. Nos deliciávamos com os sonhos, até que eles se calaram para todo o sempre, e se debruçou sobre nós o incólume partido da verdade, colecionando os pedaços do que já não é.
E de tantos cacos, formou-se um mosaico de prós e contras, que se materializava ao ritmo dos ponteiros no relógio da sala. No encardido dos lençóis, no molhado das toalhas. No andar dos saltos do outro lado da parede.
Não se mantinham os disfarces, mas as fantasias permaneciam. Ficavam á espreita durante os encontros, sem nunca se consumar por completo. Afinal, um dia não haveria mais fantasia alguma, pois os sonhos cresciam por outros horizontes, e em breve aquele pequeno mundo, ainda que aconchegante, deixaria de existir.
A verdade surgia como um ser desconhecido, sempre prestes a ser desvendado. Mas que continuava a seduzir-nos com seus mistérios. Sempre que a verdade era séria e dilacerante, votávamos o rosto para o outro lado, e começávamos a procurar novamente.
A busca pela verdade seria infinita, até que os sonhos se consumissem por inteiro e calassem o indagar das almas. Até que tudo fosse perfeito, e não houvesse mais tremor e medo no inteiro dos mundos.
Até que o meu mundo se consumisse por inteiro de tanto sonhar, transformando a busca em eternidade. Pois que enquanto vivermos, o humano de nós continuará com suas perguntas e insatisfações, dançando pelos salões, deitando-se no chão, fantasiando tantos outros mundos, e mantendo as paredes silenciosas como o seu desencanto.
Pena que aderimos ao natural vai e vêm das situações. Agora a beleza se foi, os sonhos murcharam, e as rosas lá fora ainda reluzem com o orvalho do inverno. E ainda que o orvalho se transforme em chuva e acaricie nossos rostos com o tocar de suas mãos, e o calçar das idéias saia voando, mordiscando a pele da nuca com o poder visceral que banha os nossos corpos de suor, estaremos cansados demais para acreditar em qualquer coisa que não faça sentido. Permaneceremos calados, apenas cultivando outros tipos de sonhos: aqueles aos quais nos basta dormir para imaginar.