23.7.05

Amar é crime?

Amar é crime?Essa pergunta me vem á cabeça depois de assistir a mais uma comédia romântica. Parece sem nexo não? Calma, eu vou explicar. Não é tão bonito quanto o filme acaba e todos são felizes, cada um com seu par perfeito, etc, etc, etc... Pois bem, na vida real as coisas funcionam um pouquinho diferentes. “Oh , não diga...”. Exato.
Pra começar entretenimento precisa de identificação. A razão pela qual comédias românticas em geral são sucesso de bilheteria, é porque exploram essa vulnerabilidade tão bela do gostar. Quando sob efeito da paixão o ser humano tem a capacidade de se mostrar em estado bruto, quase que sem defesas. Um estado bruto é livre de interferências meramente sociais. Claro que existem barreiras, de bagagem, comunicação conhecimento em comum, e todo o pacote, mas o estado convencional em que a mente funciona, sofre uma mudança. O nível da mudança determina a evolução. Se a mudança for nula, daí era só o físico entrando em cena. Se a mudança for leve, só um namorico. Se a mudança atingir níveis drásticos, já era meu bem, você está amando!
Que sejam considerados níveis drásticos comportamentos estranhos, como timidez súbita, um breve (ou prolongado) retardamento mental, falta de velocidade no raciocínio ( possibilidade descartada se o indivíduo em analise é usuário freqüente de substâncias er... ilegais!) auto-proteção excessiva (no caso de pessoas inteligentes, o mínimo precavidas ou apenas desconfiadas...) humor instável ( o que deve ser plenamente desconsiderado no caso de pessoas ‘de lua’) o chamado ‘over-sentimentalismo’ ou mesmo super-sensibilidade, ressentimentos graves, saudade insaciável e blá, blá, blá...
Onde quero chegar com esse lero? Bom, o porquê de explorar nos filmes só até o processo de se apaixonar é que o difícil é manter (“Oh... Será mesmo???”). Depois do felizes para sempre vem o amor de verdade. O que é isso afinal? Não, não se resume á vida sexual ativa, nem ao trocar de fraldas, nem status social, nem círculo de amizades, nem sogro safado, nem sogra pentelha... e não, nem apenas á junção exploratória de tudo isso. (PT!!!)
No final, o que importa é a escolha de valores e a capacidade de distinguir o grau de importância entre eles. Todas as dificuldades estão na má distribuição de prioridades e poderes, e numa fraca administração do amor. Falo aqui de qualquer relacionamento, principalmente amizade. Se todos os valores que cultivamos numa amizade fossem aplicados nas outras relações metade dos problemas estariam resolvidos. E por mais coração de gelo que uma pessoa possa ser, todo mundo na verdade só quer ser amado, e ser tratado com atenção e carinho. O errado é deixar isso escapar por entre os dedos, não importa a razão.
Amar não é crime. A sociedade e o entretenimento exploram os clichês da paixão e do sexo, por que o amor em si é um sentimento que não se reproduz através de imagens, como o desejo, o medo, a frívola alegria que provoca o riso. O amor se sente. E não existe calculo que determine quando é que se vai sentir.
E a chave é amar sem orgulho, sem os sentimentos de posse com o qual se apegam os certos e errados individuais. O interessante não é possuir, mas sim coexistir. Cuidar e se importar não é possuir. E amar, é deixar completar o ciclo de ida e volta a cada instante. É ignorar os coeficientes...
Não pretendo aqui racionalizar o amor. O problema está justamente em analisar demais, pensar demais, influir demais... Sem deixar espaço para absorver, para sentir de fato. Aproveitar o momento não é parar de raciocinar, mas raciocinar sem preconceitos. Se machucar é um risco, mas é se ferindo que se aprende a lidar com o sentir. Não falo em se atirar em precipícios, nem faço menção ao romantismo de sofrimento exacerbado. Digo apenas que viver se privando de sentir o que quer que seja, amor ou dor, é simplesmente não viver. Existem altos e baixos, mas como não se pode prever o futuro, é impossível nivelar por cima.
O crime é negar a si mesmo. Se tudo se tornar ausência de concessões, no final não sobra nada. Eliminar tudo que não é perfeito vira intransigência. Rigidez no escolher dos ventos. Nesse caso resta chegar ao fim da vida numa procura incansável pela satisfação, tendo passado pelas melhores situações possíveis, descartando-as na primeira dor, sem realmente ter vivido nenhuma no seu potencial completo. Fechar os olhos para tudo que não tem face definida trava as possibilidades do porvir. Abrir aos olhos para os erros, em vês de puni-los, concerta passos em falso e abre espaço para mudança e solução. Tudo merece uma segunda chance.

8.7.05

Desabafo

Tenho procurado razão pra explicar tudo isso. Mas na verdade nada é exatamente racional. Quisera não existisse saudade, nem mudança. O que acontece aqui dentro é mera causa de um outro tempo. A razão para se sentir dor apenas respira. Não se demora em explicações... Apenas existe.
Quero um outro mundo. Tudo que acontece aqui me dá certeza de que estou no lugar errado. Não tem lugar pra idealismos, é tudo frio e seco. Me criei achando que respeito é um presente, que se dá pra quem se ama. E que se alguém te respeitasse era prova concreta de um laço, que deveria ser respondido com igual respeito, mesmo que só por cortesia. Tinha em mente que carinho se dá sem esperar nada em troca, mas dar carinho e receber patada era só um medo. Pensava que era simplesmente ser correto e seguir a consciência, e tudo ia dar certo eventualmente. Tenho em mente o quanto é possível ser ruim e machucar, mas algo em mim me leva a achar que as pessoas mudam sempre, e não há nada que impeça que seja uma mudança pra melhor.
Só que vendo assim tão de perto, tudo é tão ruim. A maior parte das pessoas se trava e não sente nada nunca, pra não sofrer. E assim morrem o amor, a verdadeira amizade, toda a cortesia do respeito, todo o prazer de sonhar, toda a essência primeva.
E sigo em frente sem olhar pros lados, pra ver se não sofro também. Não me faz bem andar num mundo onde nenhuma intenção é ingênua. Onde é cada um por si. Porque se ninguém for por todos, como é que o mundo vai mudar? A dor vai só crescer sempre, sem restrições, entre credo, raça e nacionalidade. E certo é que ninguém devia sofrer. Mas todo mundo só se importa com a sua própria dor. Seu próprio sustento, suas próprias palavras, seu próprios certos e errados. E tudo apenas segue em frente, sem olhar os que ficam no caminho, sem poder levantar. E aí é “morte aos fracos, pois o mundo é dos fortes” todos se esquecem que é do sangue de vários “fracos” que se faz um “ forte”, e volta a regra, ninguém é independente, se fosse, o mundo seria repleto de ilhas desertas, onde poderíamos nos virar sozinhos, sem mãe, sem amigos, sem amor.
A ausência de idéias afins machuca. Fato. Existiram Cristo, e Madre Tereza, Ghandi, com idéias e atos muito mais nobres, mas o mundo ainda é o mesmo. Minorias são e serão minorias. E eu mesma, quando estou bem esqueço que tudo isso existe e vou cuidar da minha vida. Mas que vida? Era preciso não existir limites no sonhar. Do contrário é tudo tão desinteressante, tudo tão distante. Nada realmente toca... Nesse pacto para não sentir, não se vive.

24.5.05

O Silêncio

O silêncio é a base da comunicação. Estar em silêncio é comutar pensamentos. As pessoas subestimam o silêncio, transformando-o em um antagonismo anti-social. Na verdade a essência de transmitir toda a necessidade do pensamento está no silêncio, mas sua face permanece oculta para as pessoas que apenas analisam palavras.
Sobrepor-se ao silêncio é um erro, sem ele a comunicação humana seria repleta de falhas. Seria impossível manifestar pausas e aproveitar o momento. Se mesmo com o silêncio operando a mil nas sombras na mente ainda nos é limitado o entendimento do mundo na sua verdadeira face, como seria pensar e não ter tempo para desenvolver todas as analogias presentes no cérebro?
Análise não é sentimento, é a racionalização do sentir. Pensar sempre na
negação das paixões, é considerá-la toda e qualquer sensação ou reação que provoque o entorpecimento momentâneo (ou não) do funcionamento mental. Tenho por paixões os momentos em que o tempo para e a contagem dos segundos parece dobrar. Os sentidos aguçam toda a intensidade do silêncio nessas horas, e concentração atinge um outro parâmetro funcional. Fugir a esses momentos através da lógica é transformar vida em estatística.
by nady

Libertário

A última ceia no seio da vida.
E na ausência de desfeitas certezas,
Existem apenas definições...
Não mais devaneios vitalmente mortais,
Não mais sensações ou desejos,
Nada de rostos-reflexo nessa água tão suja.
Correção da errata: sonhar.

Sopra este vento sem causa e sem dor
Á seduzir cada mar sem pedir nada em troca,
Não se cortejam mais estrelas serpentes no ar...
Querer é romper e causar,
Domar a incerteza no ar,
E competir com uma estrada infinita
Que faz a curva nesta torre de marfim.

Imagens de tortas belezas,
Rompantes em chama...
Surpresas deveras dormentes,
Sóis no gelo tórrido da mente,
“Aqui jaz um sorriso...”
Que esteja no tempo a dançar,
Como estrela serpente pairando no ar,
Flamejando o passado recente,
Absorto na água do olhar.

Recoberta íris,
Que esteja a luz a contar histórias,
Tescer memórias,
Arfar suspiros...
E que sejam histórias carregadas de asas
Desprovidas de amores,
Satirizando os contos de fadas.

Voam idéias...
Discretas armas,
Sutil defesa,
Cerrado o cerco.
Vil o tempo,
Calçada a alma,
Armado o cenho.
Perfeito sonho.
Cintila a calma,
Por triste queda...

Em azul-terra,
Está vencido o credo,
Num céu marrom,
No qual pássaros perderam asas
Por não voar.

E vence acesa garra,
Que aqui jaz morta.
Sem brandos sóis,
Sem indefesas luas.
Voam armas,
Por sutil cerco,
Nessa vil calma.
E armado o sonho,
Cintilante a queda...

Que reine paz,
Em todo credo e alma,
Para todo azul e cinza céu.
Porquanto mesmo que sem asas
Quero voar...


by nady

1.5.05

Estar

Estar é solar em destinos iguais,
Encontros divisos, sorrisos.
Desenhos...
Queria que cada céu estrelado fosse um desejo,
Queria que cada gota de água fosse em jarro de barro...
Um toque na noite se toca,
Tocam-se as luas num só universo.
Só que num universo indeciso...
Que fossem as noites quereres concisos,
Que fossem os dias concretos sorrisos,
Que fosse saudade e não um gostar difuso.
Ausente, indiferente, única barreira existente.
Morte ás barreiras...
Ou será morte aos sentidos ainda dormentes?
Que saiam sentimentos dessas ondas,
Morrendo talvez...
Solando,
Querendo,
Sonhando um talvez...

by nady

Por Isso Eu Canto

Prefiro ter aos pés,
Esse som de inverno
Maquiando cada gesto,
Camaleando por estes vales
Como que brisa quente bafejando solares.
Pintando estes teus olhares...

Um violão,
Uma voz,
Um sorriso,
Um beijo,
Um violão,
Uma voz.

Prefiro ter aos pés,
A relva doce
De um caminho incerto,
Do que caminhar a passos de concreto,
Calculando cada gesto,
Estatizando esta prisão de ferro.

Um silêncio,
Um grito,
Um passo.
A apagar o grito,
Passos tímidos,
E coisas que só uma boca é capaz de contar.

E por isso eu canto:
Prefiro ter aos pés,
Este som de inverno...
E maquiar cada gesto,
E camalear pelos teus vales,
E sussurrar como que brisa quente a bafejar solares,
Canto querendo pintar estes teus olhares...

by nady

Pulsar

Angústia
O dragão em você pulsa...
Que não há pra onde ir,
Que não há lugar pra sentir em casa.

Que solidão não tem parâmetro,
Não precisa estar sozinho
Não precisa estar... só ser.

Que raiva não precisa de jaula.
Que rancor não alimenta ódio.
Que não precisa de sapato,
Pra pisar no lugar certo.

O furo na história não é de ninguém,
Nem o livro aberto na página errada,
Mas pra onde o lucro vai todo mundo sabe,
Gritar é escolha.
Calar é condição de existência.

Pulso.
Que as suas manias não tem importância.
Que só as palavras são suas,
Voz.... pulso.
Que navalha na língua não mata, mas fere...

O pulso cala,
Que não há lugar pra revolta.
Que a justiça jaz na consciência.
Que flor tem espinho
Que ideologia é mentira.
Que corre sangue nas veias
Mas corre sangue no chão.
Que criança chora,
Mas não é por perdão
Que ganhar é perder,
Perder é poder.
Ganhar é sofrer.

Que fachada não é burguesia.
Que voz é voz,
Que sangue é sangue
Mas você não é você...
Você é o que vê
Que parâmetro não se mede
Felicidade não se molda
E paz, se procura.
A paz que não existe aqui dentro.
Muito menos lá fora.
Que eu quero agora.
Que os sentidos são nulos...

by nady

Sol

Tenho um sol piscando estrelas,
E ando glissando cada segundo em milésimos.
Se queres soprar ao vento leve forte vento,
Cala esta pontada de chuva de verão e de inverno.

Admira-se o céu a possuir cada sol,
Admiro-me possuir cada diferente dia como único dia.

Rompe-se o tejo,
E acho-me na cidade mais bela,
Levitando por estrelas e constelações.
Verdemente me consola este tempo azul...

Correr e voar,
Talvez escapar e voar,
E no bater de portas tão vermelhas,
Tenho todo o poder a escorrer escolha.
Talvez o nada queira correr e voar.
E não fossem os pretos girassóis em brasa,
Perderia-me por entre gélida paz e estonteante cor.

Romper com cada regra em vida,
E deixar que seja morte a remediar.
Deixar que não existam erros,
Andar sem economizar espaço,
Amar sem teorias da conspiração,
Crescer por todas as hastes sem delimitar esquinas,
Passar por todos os templos e não deixar vestígios,
Ser um desafio vivo para cada inspirar,
E poder desafiar os limites da imposição.

Existir é confabular becos sem saída,
E trazer o final à tona.
Que tenha fim tudo que existe,
Mas que restem os resquícios da memória vivos a pulsar na mente.
Pois é nela que se guardam as mais raras fotografias e os mais belos altares.
Que sejam altares para si mesmo,
Valorizando cada pedaço de força e fraqueza,
Fragmentando idéias e incompatíveis sois.
Que tudo se entenda como mundos afins,
E memórias sejam novas histórias a serem contadas.

Dores seriam espaço para novos silêncios,
Se fossem silêncios luto a chorar.
E calma seria ouvir e querer calar,
Se não existisse nem vontade nem pensar.
Já não quero calar os espaços-silêncio que pairam no ar.
Quero gritar a contida essência do ser ou não ser,
Que tudo apenas seja!
Condenem-se a si mesmas as estáticas tradições,
Se anulem e fechem os caminhos sem ramificações,
Não se pode deixar que o externo domine o interno.
Afinal quem decide o destino mora aqui dentro,
Governa o meu microcosmo,
E transcende as expectativas de outros mundos...

Merecer outras praias e dias é dialogar.
Transformam-se épocas inteiras em segundos que se valem por séculos.
E dias inteiros são apenas um só sentimento no final das contas...
A intenção não é nada sem a intensidade desejada,
No final só importa o que foi.
Essa regra se adequa a todos os mundos...

Chega do eruditismo barato de todos os tempos,
Nas chagas das ações repetidas em tons diferentes,
Chega de dançar conforme a música,
Que seja o que for contanto que seja completo.
Que os erros sejam sempre calculados medidos e ignorados.
Não se pode mais ser sem querer ser.
Não se pode mais anular facadas através de desculpas.

Que os erros sejam sempre erros, as falhas sempre falhas,
As intenções interrompidas meros sonhos,
E que a vida se transforme numa roda inflexível,
Arrotando humanidade e devorando a fragilidade.
Sensibilidade é apenas uma faceta do destino,
Dizimada por indefesas lágrimas vãs...

Seriam vidro se não fossem reais as dores,
Seriam água se não fossem castanhos olhos,
Seria paixão se não fosse amor-paixão,
Nada é incondicional enquanto dura.
Que sejam seguros os becos escuros no meu soluçar..
E que tudo se transforme,
Mesmo que disforme,
Em qualquer definição concisa,
Para que sejamos todos um diferencial em si,
Mesmo que desinteressante glória,
Mesmo que vã filosofia,
Destoem os sinos e sejamos felizes,
Enquanto não houver equilíbrio entre individualismo e possessão,
Existirão infindos conflitos nos mares e sois...
Que nada seja incondicional enquanto dure.
By nady




Semi-análise

Semi-análise disforme
Que segue sem passo,
Ao longo do tempo,
Que morre no meu sentimento.
A calçar a alma embaraçada,
Que fere-se ao partir-me remota,
E solve o silêncio que canta meus medos.

Sozinho encantas a sombra,
Que cala o sentido da alma,
Senzala sem fim...

Carícia que faz a curva,
Deixando-me turva na água que corre.
Nos rios avança,
E morre na alça sorrindo disforme,
Dorme acordada querendo viver...

Me tenha sorrindo, me tenha chorando,
Me tenha achando, querendo, morando,
Mas saiba que o tempo me faz sussurrar.

Me queira, me saiba,
Me entenda, me faça sonhar,
Para que não se faça receio,
E não se faça desejo,
E não seja segredo a nos apartar.

Que tenhas um corte sangrando na pele,
Tecendo uma aranha,
Descendo uma laje sem escalar.
Um gato lagarto domina o espaço e o faz pernoitar.
Que seja cereja na calda escalda,
Causando o texto, sangrando o luar...

Me deixa, esquece,
Estremece a lua no mar...
Me beije, deseje,
Sorria, abrace,
Enlace o segundo.
E o transforme,
Em uma semi-análise disforme.

Que siga sem passo ao longo do tempo,
Que morra no meu sentimento,
A calçar a alma embaraçada,
Que fira-se ao partir-me remota,
E solva o silêncio que canta meus medos...

Sozinho,
Encantes a sombra que cala o sentido da alma.
Senzala sem fim...
Senzala sem fim...

by nady

Poema sem título

Ver com os mesmos olhos cada mesmo sonho vão,
Ter com o mesmo gosto cada velho tempo e som,
Viajam as nuvens, viajo no céu.
Reflexões introspectivas querendo romper-se ao mundo,
Que se deixem levar em tensos sorrisos!
E aliviar cada impulso indeciso,
E observar cada linha entre linhas.
Que seja improviso, modulando, sanando.
Que pise no fundo do poço, flutue, perdure, perfure,
Não ande!
Tropece, escorregue, levante,
Conceitos nada são se retrógrados.
Estabilidade nada é senão algema sombria e lenta.
Simulando sentidos em cores,
Texturas em flores.
Interferências, rancores...
Tic tac tic tac
Sem nada que passe transforme, reforme...
Sem o tudo que move e comove.
Seja um tudo no nada, sem massa,
Seja a morte a cavalo dançando regressa,
Ou a vida passando dormindo avessa...
Na ausência de impulsos nos sonhos,
As relações dispersas serão sempre as mesmas.
E talvez um poema, sem título, sem graça,
Atraia uma traça, faminta e sedenta...
E corroa a essência,
Arrematando mais um ponto,
Considerando mais um silêncio,
Transformando mais um tédio em segundo...
Ou seriam minutos?
No reflexo desta autocrítica reversa:
Seja tudo ou nada,
Seja indomada certeza,
Seja entorpecente beleza,
Mas rompa com o conceito poema-ritmo-som,
Gritando sem rimas...
Mas amplificando na vontade, a voz.
Mas um fim se arreda e carrega um adeus.
Que seja adeus aos deuses,
Mas não a vida,
Mas não a morte,
E sim á escrita.
Minto...
Abandonar os versos eternos,
É encher de sombras o ar que respiro...
Que fazer sem a sutil linguagem do calculo?
Prefiro calar-me.
Minto...
Calar é desintencionar o ouvinte.
E na verdade pretendo reinar no improviso,
Matar o conciso indeciso do meu pensar,
E reconquistar uma única platéia infinita.
Que jamais durmam os versos,
Pois que apenas existem num outro universo.
Universo meu que pulsa e respira,
Almejando adentrar no teu universo...
by nady

22.3.05

Autoconhecimento

Inacessibilidade é um marco para tudo. Tudo se baseia na sua existência ou ausência. Porque não se castram vontades e pensamentos nunca, eles estão sempre lá, mesmo que inacessíveis. A parte difícil é quando o subconsciente guarda tudo para si, trancando o consciente do lado de fora. Não existe segredo para desvendar a si mesmo. A palavra chave é autoconhecimento.
Como seres mutáveis, seria incrivelmente difícil acompanhar as nossas próprias mudanças. Até porque algumas mudanças apenas se mostram em situações novas ou inusitadas, quando a personalidade age de forma igualmente inesperada. Sem contar as rotinas que se rompem e ações que diferem de outras em situações aparentemente idênticas.
O funcionamento do homem é um mistério sem parâmetros. Domínio próprio vem com a experiência, liberdade se constrói, eficiência é uma arte, amar é um presente. É impossível tragar em palavras o que é viver, porque todas as palavras apenas definem partes triviais do comportamento humano, não exatamente abrangem o que é viver.
Transbordar os mares da memória seria um erro, toda bagagem edifica o autoconhecimento, e buracos que se criam nas falhas de memória ou comunicação se transformam em uma bola de neve, atropelando todo o progresso já construído.
Suprir a si mesmo é exaltar a existência, o objetivo de viver é romper com velhas idéias e ideais mortos, banir suas próprias falhas e crescer. Ter medo de crescer é estacionar, ter receio de amar é uma tentativa frustrada de salvar a si mesmo e estar seguro. Segurança não se adquire por proteção, é amando, se abrindo, conquistando novas situações que se domina a insegurança, adquirindo seu próprio porto seguro.
Criar espaço para fluir suas próprias idéias é melhor forma de entender o seu mundo e expandir seus conceitos. Compartihar suas idéias é a melhor forma de absorver críticas. E é através das portas e janelas do pensar que nos tornamos radiantes e prontos para a vida.
by nady

21.2.05

Luto

Diz-me o que o silêncio não faz por quem já não grita,
Como quem não sabe mentir fere a palavra.
Gritar é sofrer porquanto não silencia,
Dor intensa de não querer sentir.
Viver é cadência de jogos.
Ganhar é relativo ao momento.
Ter carinho em mãos não é ter desejo.
Abraçar não correlata querer.
E beijar não promete sentir.
A lágrima não sustenta não cura, não liberta.
Sentir dor é amar.
Até quando as flores do caminho são levadas para longe...
E as folhas não secam apenas se ocultam...
Presença e Ausência completas em segundos
È permitido falar e ferir, mas a resposta um dia alcança.
Não adianta sorrir, que a lealdade condena.
Tenho ânsia de paz, só quero voar pra longe...
A sociedade apodrece porque o indivíduo falha.
Correção revolta,
Conversa acalma,
Atitude auxilia.
E simplesmente olhar não implica ver.
by nady

18.2.05

Dia e Noite

Noite,
O reflexo do sol na telha aberta,
Pés descalços sentindo a terra,
Costas nuas
Expondo cada vértebra.

Céu sem estrelas,
Sol sem luz,
Pássaro sem canto,
Flores sem pétalas,
Árvores secas, folhas mortas.

Máquina do tempo,
Viagem em pedaços.
Folhas no chão,
Estrelas no mar,
Ranger de portas.

Um dia na noite...
Que claramente rompe-se,
Que simplesmente encontra-se,
Reluzente esvai-se,
Calmamente nasce.

Para absorver-se,
Onde jazem outras estrelas,
Onde apaixonam-se os deuses,
Onde almas consomem-se,
Onde noite é dia e dia é noite.

Onde não há dimensão entre espaço e tempo,
E a contagem dos segundos é eterna.

by nadja

16.2.05

Definição


Por que te forças a ressurgir, re-memorizar, re-sonhar, re-sentir, e fazer parte do teu tempo solidão?
Tens como chão o leve enclaustro de um navio...
Tens apenas a ti como perfil de um desafio...
Teu desejo dorme acordado, no inverno gélido de um pesar angustiado.
E a ofegante idéia, a vontade intrigante, se alimenta das folhas verdes do verão, tão perto...
Que nenhum outono te impeça uma paixão,
Sem paixão pelo ar, não se vive...
Que os pensamentos, com um grito surdo de dúvida, não ecoem no sentido da vida que te permeia.
Tenho nas mãos o poder da lua na noite, o prazer do dia de sol, que se enfraquecem em um eclipse diário. Conturbado por agonia única, que nasce por si só, e resiste ao medo de existir.
O peso de uma lágrima, que transforma um segundo, que escorre por um rosto pálido.
E tua vontade reprimida te escorre pelas mãos, teu poder de resistência reside ás margens de uma argumentação nula.
A tua segurança se fundamenta em um milésimo de segundo e se dissipa...
E essa voz cortante, tem nas entranhas desespero. Esse medo uivante, que se espalha no topo de uma montanha, desce pelo córrego que encontra teus lábios, apenas para sanar tua sede.
Teu corpo fala. Tuas veias guiam esse fogo morto. Essa chame viva.
Em determinados momentos, sentes um pouco de vida fluir no olhar. Quando a pálpebra se fecha, a vida se esvai...
Tua sensação respira silenciosa, pensante, pulsante e acaba. E restam as folhas secas no chão, e ainda restam vestígios do último outono.

by nadja

13.2.05

Despir o tempo

O sangue que escorre respira a lagrima pulsante.
Tremor inconstante de um ritmo quieto,
Passos barulhentos a ranger por entre mares,
Singela a voz,
Sussurrante palco...

O sangue que escorre dançante
Flameja lentamente na aurora do porvir
Passos que escorregam em alto mar,
Murmurando sonetos a fim
Silêncio, onda, silêncio, onda, silêncio...
Água, Água, Água,
Tremor inquieto de um som incessante...

O vento uivante que corta gélida dor
Lágrima, lágrima, lágrima...
O sussurro que questiona
De cada pulso um coração,
Que de um abraço,
Só a humanidade renega.

Uma lágrima, um rio.
Meia volta de passo, saudade.
Um silêncio, palavra.

As chagas que não impedem o andar,
Que só um abraço te impede chegar
Uma fita, um laço, sufocante...
Orvalho gotejante
Louvor de um sentir...

Implica-se perceber uma íris
Onde o silêncio inquieta-se, despercebido...

by nadja