Mistifica-se o verso,
sem que signifique nada no tudo,
sem que seja exceção á regra.
Diria, sem medo nem voz,
que se é um dia,
que se o viva na poesia.
Poemas e textos de Nadja Lopes
Quisera admirar o silêncio, colaborando de todo com a presença deste dia. A cor do céu que instiga maravilhas se calou hoje em toda poesia. Se existisse inverno nesse lado da apatia, seria calado então na palma da alegria. O sol, que agora inexistia, partiu-me em vinte léguas, o silêncio então dormia. E as cidades se calaram, de mãos falantes, punhos cegos, euforias. As mãos eram o ditado, alegoria. Os punhos, meras hastes dizendo o que queriam. Era dia de balançar as palavras, para ver se o silêncio se mexia. Mas eis que ele lançava sua calma, em clara sintonia, e me derreteu a alma sem calar sua existência. O que fazer com tamanha simpatia? Uma alma calada, não verte poesia. Mas a noite com suas traças enfim caia, e a voz pôde, mais uma vez, cantar sua euforia. Descobri então que o silêncio sempre fora minha sina, e com suas mãos firmes me prendia dia, noite, acontecia. Mas não era simples o calço em demasia, as noites sempre serão vozes em meio á mãos vazias.
E se você pudesse saber que a sua alma se lembra de tantas coisas...
Tantas, que a sua mente não denomina...
Como um passo que é por demais leve para tocar o chão, a singela sensação de poder pausar a gravidade e subir com todo pensamento até depois da curva do vento, onde os olhos não podem ver.
A intensidade que não respira assim com tanta voracidade em outro corpo se não for simultânea. A intensidade que assusta, acalma, entorpece. A intensidade que brota de onde não se sabe, e a partir de então doma toda partícula consciente que existe na mente.A intensidade que se esconde em tantas pessoas.
É por demais simples. O processo é simples. Mas o que é possível sentir, assim, de lado para si mesmo, é sempre imprevisível.É quando as palavras se estendem por todos os poros e se tornam sinceras como atitudes.
Achar o inimaginável uma possibilidade é um dom. Entregar-se é um dom. Respirar o outro é um dom. Manter promessas e acordos é um dom. Manter a palavra intacta da verdade é um dom. Autocontrole é um dom.
A felicidade provém desses dons.
E quando se reclama das dores do mundo, com seus tentáculos, domando nossas alegrias, nossa sinceridade, então se deixa a beleza dos dons para cultivar a dificuldade do desprazer provocado pelo medo. É quando abrigamos o desamor, com sua superficialidade densa e entorpecente, e nos dizemos que somos imunes ás dores.
Tudo têm seu preço. E existem condições que nos castram, nos entortam. Aceitar que o pouco que se têm é o muito que se pode ter é aceitar que o mundo não pode oferecer nada de melhor.
Abarrotar a coragem de viver com defesas e condições é silenciar a sinceridade e mantê-la trêmula, a se esconder de tudo.
Não se pode cobrar. Nunca pôde. E ainda assim, a realidade, por mais cruel e insossa é sempre melhor do que a ilusão adocicada, que nos levanta tão alto que a queda pode partir a alma no meio.
Mas é que o amor é tudo. O amor é maior dom, a maior dádiva, o melhor presente.
O amor é inesperado, adverso e revolto. O amor é infinitamente melhor que os vícios que o substituem. O Amor é mesmo tudo. E ele pode estar em todas as partes que permeiam uma existência, sem jamais falecer ou acabar. As pessoas podem irradiar amor mesmo quando não estão bem, mesmo quando não querem. A única regra é a sinceridade. Sem verdade não existe amor.
Quando eu falo de amor, falo do que me incendeia. Falo do que me domina, me nasce, me cria. Não falo de sedução. Falo desse outro tipo de interação, que é simples e forte.
Quando falo de amor, falo da cura do mundo. A cura que anda por dentro das pessoas, que ás aproxima como ímãs, que ás conecta e transforma.
Falo das coisas que quando parecem esquecidas, se provam mais fortes do que se deduz.
Falo de vontades que permanecem boas, não interessa o quanto foram corrompidas.
Falo de segundas chances. Falo da beleza que é eterna.
Falo do que permanece, do que não se destrói. Falo do que não se esquece.
Falo do amor que não é feito de areia. Falo do amor translúcido.
Falo do amor que mantém as pessoas unidas, e mesmo quando não se vêem se sentem.
Falo de poderes que eu não entendo. Da magia que existe no mundo, e que é o progresso que acontece em todos os lugares, por debaixo da pele.
Falo do que eu não controlo, do que me permeia e permeia a todos.
O silêncio escorria pelas paredes e o viés do encanto se calou. Eles sabiam o que era o riso, mas este se partiu no sarcasmo. Na pele se sentia o calado do toque. As mãos se chocavam com a mecânica das palavras, e, portanto, negavam-se. As horas caminhavam, galopavam, mas os corpos partilhavam da sinceridade do não-sentir. A desistência de cada pedaço de sonho, pelo caráter infiel da realidade. Não era possível amar assim. Existia um rachar dos sentidos. As rosas que cresciam nos jardins nada sabiam do desmoronar das idéias. O céu permanecia intacto. As pessoas caminhavam nas ruas, com seus egos, suas fantasias, seus mitos. Mas os nossos sentidos permaneciam ligados e partidos. Nos deliciávamos com os sonhos, até que eles se calaram para todo o sempre, e se debruçou sobre nós o incólume partido da verdade, colecionando os pedaços do que já não é. E de tantos cacos, formou-se um mosaico de prós e contras, que se materializava ao ritmo dos ponteiros no relógio da sala. No encardido dos lençóis, no molhado das toalhas. No andar dos saltos do outro lado da parede. Não se mantinham os disfarces, mas as fantasias permaneciam. Ficavam á espreita durante os encontros, sem nunca se consumar por completo. Afinal, um dia não haveria mais fantasia alguma, pois os sonhos cresciam por outros horizontes, e em breve aquele pequeno mundo, ainda que aconchegante, deixaria de existir. A verdade surgia como um ser desconhecido, sempre prestes a ser desvendado. Mas que continuava a seduzir-nos com seus mistérios. Sempre que a verdade era séria e dilacerante, votávamos o rosto para o outro lado, e começávamos a procurar novamente. A busca pela verdade seria infinita, até que os sonhos se consumissem por inteiro e calassem o indagar das almas. Até que tudo fosse perfeito, e não houvesse mais tremor e medo no inteiro dos mundos. Até que o meu mundo se consumisse por inteiro de tanto sonhar, transformando a busca em eternidade. Pois que enquanto vivermos, o humano de nós continuará com suas perguntas e insatisfações, dançando pelos salões, deitando-se no chão, fantasiando tantos outros mundos, e mantendo as paredes silenciosas como o seu desencanto. Pena que aderimos ao natural vai e vêm das situações. Agora a beleza se foi, os sonhos murcharam, e as rosas lá fora ainda reluzem com o orvalho do inverno. E ainda que o orvalho se transforme em chuva e acaricie nossos rostos com o tocar de suas mãos, e o calçar das idéias saia voando, mordiscando a pele da nuca com o poder visceral que banha os nossos corpos de suor, estaremos cansados demais para acreditar em qualquer coisa que não faça sentido. Permaneceremos calados, apenas cultivando outros tipos de sonhos: aqueles aos quais nos basta dormir para imaginar.
27.9.08
Diga adeus aos seus deuses amor. Deles temos medo e nos fazemos esperar. Quando são pessoas nos levam mar adentro. Quando somos nós podemos afogar. Não faça de mim uma versão do seu querer, nunca. As diferenças é que carregam nossos nomes.
Ela sentia que havia passado os últimos meses dentro de uma caixa. Uma caixinha cor-de-rosa, cheia de laçinhos, exatamente como aquelas que ela odiava ver no shopping. Ela morou nessa caixinha pequena, mínima. Por fora era cheia de frufrus, ornamentos. Por dentro um poço de ilusões. Era amarrada com utopias sutis, gracejos quase que imperceptíveis. E Ela conseguiu ser feliz dentro daquela caixinha. Conseguiu viver situações que a faziam sorrir, chorar, imaginar, absorver, cintilar, brincar, relaxar, viver, amar. E pelos bons momentos ela começou a entristecer, desesperar, desejar, compreender o incompreensível, suportar o insuportável, se iludir com idéias, desejos, vontades, abraços.
E a caixinha foi ficando menor.E por isso ela se sentia cada vez menor, menos quista, menos desejada, menos importante, menos ela. E a caixinha foi ficando menos bonita. Os laçinhos ficaram frouxos, as cores desbotadas, os quereres superficiais, os desejos apenas desejos. Mas isso era só o externo. Trancada e resumida dentro da caixinha, ela só queria ser amada. Queria ser amada por inteiro, do início ao fim, dos pés á cabeça, dos abraços aos beijos, do carinho a cegueira da posse. Ela queria ser importante, queria que tudo fosse mútuo, queria ser guardada, cuidada, abraçada, beijada, amada, queria ser lembrada, considerada, e não mantida. Mas dentro da caixinha ela tentava ser feliz, aceitava o pouco que podia ser.Dentro da caixinha ela vivia mentiras, vivia ilusões, compreendia, sorria.
Mas a caixinha foi ficando apertada. Outras pessoas foram fazendo parte dessa caixinha. Pessoas que gostavam muito de morar na caixinha também. Amavam ser limitadas, mantidas, delimitadas. E ela foi sentindo que a caixinha nunca foi dela. A caixinha era uma desculpa que ela inventou para não doer. Pra fingir que o amor que ela quer não precisa ser inteiro. E por mais que ela fosse capaz de amar, sofrer, sorrir, chorar, ficar, sangrar, e sentir tudo dentro da caixinha, a caixinha não era dela, e ela sentiu tudo sozinha. E saber disso, doía mais.
E quando finalmente ela saiu da caixinha, não sabia o que fazer. E a única coisa que ela sabia é que não queria saber de caixinhas, e não queria saber de amar.
Ela só queria ficar bem.
As caixinhas e histórias e mentiras e desejos e laçinhos, ilusões, podiam ir pro inferno, se ela apenas não sentisse tanto.
E ela sentia que odiava o amar, odiava o amor...
Na verdade, ela odiava o não-amor. Ele aparecia como um pássaro negro, sempre que amor era o que ela mais queria.
Eu conseguia ver de longe a sombra do horizonte, E o vento dançava de um lado para o outro junto ás folhas que ainda restavam. E só me restava aquele gosto novo na boca. O gosto que fica quando se cresce mais um pouco. E eu não entendo como as pessoas deixam de viver por medo de perder o que amam. Isso não é amor. Agora, não me pergunte o que é amor. Mas de alguma forma sinto que ele deva ser livre. Amar não é cortar as asas dos outros. Amar não é encerrar ninguém entre quatro paredes. Amar deve ser permitir a vida. Permitir que os outros vivam e cresçam por sí mesmos. Permitir a independência. Amar é libertar e não prender. Medo de perder não é amar.
Me diz assim ao pé do ouvido, Esses suspiros são o que ninguém paga pra ter. E num resto de dia frio, traz assim o verso, quero ver o verde que já foi. A chuva que dobra na esquina é pra cair na sua janela, E se misturar com a sua chuva, que desce de um jeito que só ela sabe, E se desgasta pelas curvas do seu rosto. E não é de tristeza, não é de leveza, não é de praça ao ver de todo o céu azul, Que agora cinza banha de vértices as suas idéias, as suas loucuras. Te vejo abrir-se como um silêncio se abre de cores quando dá o seu adeus ás palavras. E quando são libertos sons de novas notas, e o silêncio definha, Então são os olhos que eu paro de encarar que soltam cada parte do que é meu, Quando nada quero falar. E se um dia eu vir passar o mesmo velho, negro, teu olhar, Digo o adeus que te corteja as mãos quanto me quero ir. E deixo assim de lado meus pés, Para que não escolham sozinhos para onde ir. Como costumam fazer quanto sou eu que não sei como chegar, nem como sair.
Mulheres são seres divinos. Os homens que sabem disso têm menos chances de cair na besteira de provocar sua ira. Quando se irrita os deuses, não há muito que se possa fazer. O cara tenta consertar, liga, pede compreensão, diz que não consegue viver sem ela, ou então, liga insistentemente, chama pra sair, ela nada. Freqüenta os lugares que ela costuma ir, só pra se irritar e ver que ela já mudou de vida. Ela não quer mais saber de limites, nem de ficar presa, morando dentro de caixinhas confortáveis, cheias de fitas coloridas e balões cor-de-rosa. Ela sabe agora, que o mundo é muito maior que aquelas caixinhas. Que é melhor ser livre do que ficar segura e apertadinha nas caixas que alguém fez pra ela, delimitando o seu vir a ser. Quando a sensação de liberdade acomete uma mulher, então a sua ira se liberta, e ela não quer ser tratada como uma florzinha, ela sabe que tem sentidos e sentimentos muito mais resistentes que as pétalas que usou para se proteger do mundo. Ela sabe que não quer ser posse, nem objeto indispensável, mas quer que alguém conheça cada fio de cabelo seu, e valorize suas faces, e abrace seus sentidos, e conheça o pulsar do seu peito, assim como a palma da sua mão. Uma mulher que tem a ira no couro sabe que homem nenhum é maior que as possibilidades que ela pode criar, nem mais forte que os poderes que ela pode exercer, nem mais significante que o mundo que ela é capaz de sentir em instantes. Uma mulher que se aceita dessa maneira sabe que é uma deusa. E ela também sabe que nenhum homem no mundo está a par desses segredos por completo, nenhum homem partilha dessa aceitação, a não ser que ele seja muito bem casado, ou, sabiamente, goste de outros homens.
Uma terceira vez, suas mentiras e dinheiro sujo, Suas medidas e copos vazios, Seus Planos de Aceleração Conturbada, Suas segundas vidas e prazos perdidos. Mas ninguém agüenta, terceiros panos e terceiros Planos, Nem mensais de corrupção. O mandato é mais um Ato, E se é inconstitucional, Você têm lá suas terceiras vias, Seus cálculos e baixarias. O desespero do povo segura a sua onda. Mas é a inocência que te compra a venda.
Irreal é a aparência, de quem cumpriu a sua meta, Pé após pé na linha reta. De populismo o inferno está cheio, E pelo jeito o Brasil também. Assim foi e assim será, A platéia têm que interagir com o público.
A falta de instrução causa uma falha de comunicação, e essa falha vai engordando e humilhando a educação. Separa a sociedade, mata a cultura, deixa a nação muda. E essa falha está em tudo, ta na rua, no preço, no gosto da vida, está na barba do presidente. A informação que falta é por zelo á contragosto, o dinheiro que falta é por excesso de imposto. Se um buraco na estrada se tapa com burrada, os buracos na política são tapados de bom grado, com desculpas, agrado, novas votações. O populismo é de bico calado, o voto é contado antes da decisão, e se existe democracia, é na praça vazia, onde ninguém grita se não for na multidão. Alguém me explica como que o brasileiro é tão bonzinho na hora do perdão, e tão bobinho na hora da eleição? Se o papo não for na educação, eu não entendo.
É você namora eu. Sim, eu avião. A última coca-cola do verão. Quando eu passo, Paro o trânsito, Toca a buzina do caminhão. O pedestre do lado diz: "Que mulherão!" Eu disfarço, sussurro um palavrão.
Mas você só me acha linda, Deitada no seu colchão. Só quando eu tô na rua, Você segura a minha mão.
É, você namora eu. Garota de Ipanema do Cerrado Nacional, Quando eu passo, Nêgo freia até longe do pardal.
Mas você só me quer mal, Me trata feito bicho, De viver no quintal, Só me quer de langerie, Unha feita, coisa e tal.
É, você namora eu. Já te digo que tô beirando eira, Arrumo um outro alguém, Daqui pra sexta-feira. De mulher a trepadeira, Arrumo um outro alguém, Daqui pra sexta-feira.
Não quero ver o silencio pairando nos teus olhos. Essa risca de barro que te contém o cenho. Eu quero sorrir de novo, Falar de novo, Cantar de novo.
Não pretendia tantas cores a correr por teus cabelos, Os rasgos firmes no seu rosto. Quero partir-te em trégua, Ramificar tua pele em tantos, Tantos outros passos...
Não se largue assim em tantos braços, Teus braços que um dia teceram meus sorrisos, Braços que de tanto prazer são dor enfim. Tanto cerco de palha, Tanto verso, migalha.
Não se vá assim sem palavra alguma, Na raspa de todos esses anos, Restam mãos e por demais vazios. Tanta sede de tudo, Tanto, tão cedo...
Então foi assim, Ele o melhor amigo, Ela a roupa do perigo. Ele o cientista, Ela arte, poesia. Ele o cínico, Ela um gole de absinto.
E durante os dias eles eram dois. Cada qual no seu comício, Na sua gana, seu trabalho, precipício. E durante as noites eles eram um, Sorriso, gargalhada, Na rua enluarada, Uma carne, uma cartada. E na carne o desespero, Pra quê todo o apelo? Essa roupa de passado, O cabelo arrumado, O sorriso enluarado.
E no outro dia, Ele sorria a poesia, Ela ria, apatia. Ele cheirava a boemia, E ela mal se via. Mas ele era o cientista, Ela arte, poesia.
Paro por aqui, de peito aberto e punhos cerrados. Paro de frente, pra enganar a covardia. Paro pra não delimitar a poesia. E é daqui, de dentro do quarto, Que coloco o mundo nas entrelinhas.
Como é que de tanto temer se treme a voz, Como é que se finge não ser parte de nada. Grita vai, aposto que sabes gritar, Sabes gritar a hipocrisia de quem gostaria de não sentir nada. Não é todo mundo que sabe, De dentro pra fora, o que é amar.
E justo naquela hora, O gato comeu a língua do rato logo de cara, E amanheceu sangrando em riso o pedaço de céu. Como raia uma manhã vermelha, Só estando em guerra pra saber. Só bailando trova pra entender.
E logo quando o reflexo era convexo, No eixo da borda, na borda do eixo... E se ninguém soubesse de dentro pra fora? Impossível prever meu bem. Impossível saber. Cada um sabe do seu porto, E cada um somente.
Nem todo mundo transborda o vinho em palavras. Será a literatura uma doença expressa em arte? Se é que se pode chamar o excesso de letras literatura, Se é que a arte é dedutível. Será que é a arte do som que não te basta? Será que você só sabe falar verso?
Sim você, Você de frente pro nada, Tentando entender como se lê devaneios alheios. Você sou eu, tentando pensar e criar sentido. E tentando abandonar o sentido que gosto de imprimir nas coisas. Não se irrite, Eu e você somos apenas humanos.
Humanos... Essa raça infame que não sabe o que quer. Que gosta de procurar espaço nos lugares mais apertados. Que gosta de rasgar a seda com o que não interessa, E calar-se com a tortura, autoflagelação.
Humanos, Bichos únicos e diferentes, Mesmo quando se parecem tão iguais. Seriam os humanos passiveis de comparações? Estatísticas, leis, alegorias, Quem vai saber...
Ser humano, É ser frágil, fraco, duvidoso, Cheio de medos, travas, Portas trancadas, Gavetas, cimento no pensamento. Cheio de onde, quando, como, porque, Tanto que ninguém se entende, Nem nada sente.
Não, mentira, É possível sentir cada parte do corpo que te toca as mãos, É possível sentir o ar se movendo na areia dos olhos, É possível sentir o olhar encostando-se à pele, É possível sentir o aqui e agora mudando de lugar, Conforme as horas passam cavalgando relógios. E se tudo isso é possível, É você que não quer sentir.
Eu sou você, você sou eu, Somos iguais ao cara do lado na mesa de bar, Iguais aos nossos maiores inimigos também. E nenhum de nós quer sentir nada. Estamos todos metidos no medo da entrega. Todos, sem exceção. E assim ficamos leves, Ficamos vazios.
Ficamos torpes na técnica do desvio, Ficamos cheios de medos e preconceitos, Cheios de igualdades. Muitas semelhanças fundamentais, Formas de adiar a entrega, Fingir que existe escolha.
Tenho uma idéia, Você finge daí que eu finjo daqui. E se nada mudar, a gente fica bem, E anda mais um pouco. Cada um pro seu lado, E sem entregar, dar nem partilhar nada, Continuamos felizes. Felizes e medrosos.
Felizes, vazios e medrosos... Eu sei que por mim, continuo assim por mais alguns anos.