10.10.07

Change

Era tudo a mesma coisa,
Mas de certa forma diferente.
Faltou um quê de tudo,
Um porto, um cais,
Um nome.

Ela perdeu um pedacinho de si,
Na tentativa de ser forte.
Ela tentou ser insensível,
Mas faltava um sorriso, um abraço.
E por isso mesmo faltava um pedacinho do chão.

E a tarde seguia.
O banho, a fome, a calma, o tédio.
E aquela sedução pelos livros foi menos intensa.
Livros falam,
Mas não conversam.
O dia passa, mas não insiste.
O dia passa e nada incide.

A noite chega e o sentimento é o mesmo.
A dúvida quer dizer mais um pouco a seu favor.
Suas noites serão menos tensas, menos intensas,
Seus dias um pouco mais quietos.
Qualquer coisa que esteja sentindo pode ser ou não ser saudade.
Qualquer coisa pode ser ou não ser qualquer coisa...

A verdade é que ela sente essa vontade,
Esse querer disperso,
O que o querer deseja ao certo é mistério.
Querer?
Aquele beijo.

Na falta de tempo,
Falta alguém para segurar sua mão nessa montanha russa.

9.10.07

Nua

Era uma fera,
E estava nua.
Nua diante de todos...
E por muito tempo esteve nua,
Muito tempo sem cuidar de sí,
Sem olhar para sí.

Muito tempo a ouvir o que muitos achavam que deveria ser feito. A pernoitar nas verdades alheias, para ver se algo tinham a ver com as suas verdades.

Então foi posta nua, por todos, diante de sí mesma.
E gostou mais de sí do que de tantos outros sujeitos,
Tão cheios de sí que de nada eram feitos,
Tão cheios do nada que rotulavam o mundo.

Era uma corte,
E estava nua.
Nua de ser julgada,
Nua de ser considerada como muitos outros o são.

Pensava que estando nua seria real.
Não seria uma sombra como tantas outras,
Seria verdadeira,
Seria alguém de verdade.

Mas a verdade é que nua não estava.
Não estava nua de sí.
Estava nua de todos.
Tão nua que já não era transparente para sí mesma.

Ela vestiu suas formas,
Vestiu os seus gostos,
E nua de sí,
Vestiu-se.

Nunca,
Ninguém mais pôde despi-la.

Incógnita

A face é o credo.
Isto é que nada é,
E tudo é nada.

O nada nunca foi como se fosse,
E tudo já não é como seria.
O que é essa trova?

Se eu não sabe,
Quem saberia o saber?
Certamente não você...

A dor que me grita,
É a raiva que sopra.
Se recebo esta migalha,
Me calo.

A voz é o mundo.

Se

Seria completo,
Se fosse concreto, morto, difuso.
Um belo momento,
Que definisse o tempo,
Doce tormento,
Em puro tédio.

Se tudo dissesse
Sem esperar,
Nada seria.
Tudo fizesse sem considerar,
Nada creria.
Se tudo soubesse...
Nada faria.

No momento certo,
Seria um lago,
Gasto,
Vasto.
Em demais poesia,
Engolia o horizonte
Armava, tremia.

E o nada crescia,
Como se nada mais
Se fizesse amargo,
Nem doce, nem sal,
Nem pleno céu,
Nem lua noite.

E como se nada fosse,
Nada nunca soubesse
Ou sequer sentisse qualquer gosto,
O rosto era silêncio.
A rua era segura,
O porto era só seu.

Naquele verso,
Amou-se.


...

Seria completo,
Se tudo dissesse
No momento certo.

E o nada crescia,
Como se nada fosse,
Naquele verso...

Do pé nasceu

Do pé nasceu.

E por quê?
Se qualquer tempo for de existir,
Seria o inverso do céu
A lua morta enfim.
A parte regressa do além.
Começo no meio assim,
Final sem arreio pra descontinuar.

Poema sem rumo,
Um diz que me disse,
Arrocho do arroio
A meia metade do furo,
Assim, sem mais saberes,
Os desprazeres se vão.

O lago, a rosa, capim,
Flor nem é de se cheirar.
Bonita a lua enfim,
O mar que é sem fundo
E lá, foi sem palavrear,
Sem mais conclusões,
Sem mais distração.

A corrida pega no beco o soluço,
É de sede, é de fome, é de frio.
E se via na unha um pedaço de sol,
Uma porção, um dizer,
Ditado do popular.
Foi do silêncio, brotou...
Mais um luar.

Que nada!
Foi-se o homem a caminhar.

Casa do Descaso

Pera que tempo passa,a nata castra e o dia vai..
Para que a chuva parte
E é num trago á parte,
Sem dia, mera poesia.
Então curte, canta,
Abrasa essa casa,
Nutre essa estrada,
Que se o dia não dá em nada
A rua se põe brusca no desencanto.

E se pássaro sou que me deixo voar,
Belo enquanto livre.
Cego enquanto triste.
Simples felicidade,
Curta proximidade.
Trava a trave,
Que de tão minha é somente pensar.
Torpe dia que de tão meu é seu,
E sem mais nada a fazer te deixo passar.

Memória é de um trovador,
Que sem mais nada a dizer,
Enterra suas palavras na água.
Sem mais nada a querer,
Arrasta seu passo,
Atrasa o dia.
Memória é que sem memória
Nada é senão o relógio marchar,
A demora é som que me faz relutar.

E se fosse outro dia,
Faria de novo,
Deixaria o atraso no rasgo,
O descaso no barco,
A mala sem cor.
Deveria uma nuvem ao acaso,
Para que sem mais meia hora pudesse voar.

Priorizo um abraço, que no desembaraço se põe a cantar.
O impulso não me acalma a voz.

...

E ainda que eu andasse,
Todos os vales se encerravam em chão.
E só se falava em crescer...

O por quê?
Quem é que sabe...
Essa dúvida toda é cortesia da casa.

A lua morava no mar.
E assim arriado o céu,
Deixou-me em paz.

O sonho caiu da cama,
Na raia solta do prazer.
E foi mais um dia,
Nas ruínas daquele país.

O novo será velho no próximo segundo.
E o tempo é outro,
Sempre que quiser.

E aí, serei o que sou,
Em qualquer lugar...




O meu lugar é aqui.E o seu?

Espelho

E aquela brecha no espaço,
Sem argumento,
De novo se traduz em espelho.
O reflexo, sincero, me é por inteiro.

Na raspa do tempo se lêem memórias,
De dias sem gosto, noites em sombra,
Terra sem fim...
E se o todo se muda de vento,
Escancaradas ficam as boas idéias,
A covinha no canto, sorriso,
A beleza de cada segundo.

Um talvez concreto,
Beirando um caminho reto,
Traduz a inflexibilidade,
Tempo...
Expandir a condição severa do tempo.

De frente o espelho,
Diz mais desse sorriso...
Desse descanso de lado do quadril,
Desses pés fraquinhos.
Dessa lua que carrego no olhar.

Imagens e sentidos.
Sendo os sentidos ainda mais plausíveis...
Não cerne ao belo, a distinção.
Em vez de tudo, o carinho.

A covinha puxa de canto o sorriso.
Meu sorriso.
Seu sorriso.

Viver...

O horizonte é meu pra navegar.
Que se parta o céu,
Que se quebre o berço,
Sonhos não consideram limites...
Compareça à noite no dia,
Sem sabotar a intensidade perfeita do eclipse.
Acorda que viver não é encarar a rotina.
Viver é dançar com ela.
É abrir espaço pra se encantar.
Modula.
Só falta a lua sorrir,
Pra consagrar o tempo,
E fazê-lo ruir.
Afinal, que distância existe,
Se distância não se considera?
Digo que estatizar não é suprir a espontaneidade,
Então deixa estar e fluir...
Que o tempo certo se faz certo.
O feeling é sentir os segundos,
E saber o que fazer com eles.
Que intuição não seja dúvida nem receio de cair.
Que o silêncio não seja em fuga.
Que o vento venha soprar pra longe o senso.
E seja o livre dizer o que se quer,
Que sublime as barreiras no sentir.
Quer saber sonhar?
Viva.
Quer saber viver?
Arrisque.

O Punho

Trave.
Entrave, no rasgo da palavra.
Se fossem palavras apenas,
Mas o fio torto se enrosca na paz.
E paz já não é....

Por que sujar de dor o gasto,
Marcar o gosto,
O fel é seu.
Cortesia da casa...
Marca o passo, voa, curte
Do adeus real sobra o aceno.

A verdade chora que é assim mesmo.
A violência na veia,
Brotando de todos os poros.
Espontânea, gratuita.
E aí é um sopro,
Pra desfazer a marca
O estrago é ausência de laço.

Deixa estar,
Cala.
Autocontrole é para os fortes.
Para os fracos, resta o punho.

Saudoso

Sombreia inverno,
Que hoje já é verão.
Conta-me ao pé do ouvido,
Que sonhos são sonhos e sempre serão.
E que a realidade é a jogatina dos semi-deuses...
Respiração alta.
Num tique dobra-se o tempo,
Anda que o rumo se encolhe...
A vontade traça o caminho e delineia a virada na dobra desse cenho.
Vestes de vida o silêncio produz,
Reproduzindo sons que encantam o piscar de olhos.
Dança que dançam na alma.
Nada se encerra nem desequilibra o pensar.
Pois te digo que a força está em amar.
É pra sobrevoar o vento e mergulhar de ponta no desconhecido.
Que o risco é pra se viver...
O céu é liberdade,
O limite é auto-imposto...
Se for pra crescer,
Cresça as raízes que te permitem fincar os pés no chão.
Asas, que o que tenho não é a ambição dos altos,
Mas a liberdade do vento.
A lei que rege o Universo,
É pensar antes de agir.
Mas condene as travas,
Que nesse vulcão, a lava efervesce.
E o autocontrole é não seguir correnteza.

Saudade

Antes fosse aquele tipo de silêncio,
Que agarra na intensidade um suspiro.
Fechar os olhos seria estar segura,
Se houvesse a respiração ofegante que conjura um abraço.
Nesse espaço em branco construo meu cais...
Espero uma onda passar que me entregue a chave do vento,
Cantando o que é sorrir e sonhar na presença de uma memória.
Tenho como passo certo,
O rastro do destino
Deixando pistas a cada curva,
Para delinear teu pensamento em cor.
Tempo livre, compasso incerto.
Deixa-me a certeza do crer e saber...
Que me procuro silenciar quando vejo,
E me corrijo o erro de encerrar transparência em cerco.
Procura-me o olhar a pairar no punho,
Que me faço força a esperar
Quando palavras se fazem figuras,
E gestos se tornam palavras.
Mas abandona as entrelinhas,
E rompe o gelo,
Que já não existe cerca, nem muro, nem jaula,
Que possa se fazer distância...
Dá a deixa,
Que fechar a porta é deixar passar.
E a saudade se faz taquicardia,
Expressa em adrenalina.

Relógio

Cada dia eu me sinto um pouco mais livre.
E me vejo destrancando uma algema de cada vez,
Cada hora me seduz mais um pouco...
A direção agora é uma incógnita novamente,
Um algo a ser decifrado,
Sem parâmetro,
Sem correntes,
Sem comparações,
Sem um rumo pré-calculado a lugar algum,
Lugares que já foram tristes não chamam meu nome.
Não me atrai a velha brecha na porta,
Não me chora saudosismo barato,
Nem culpas disformes por ver o reto na linha torta.
Sinto o vento gelado bater no rosto,
E ele tem gosto de aventura...
Não arrisco tanto,
Na minha terra o incerto é um prato vazio junto com a sensação de barriga cheia,
Prefiro do meu jeito,
Mesmo que não seja nada de jeito nenhum...
Prefiro as minhas asas podendo voar,
Do que tê-las sangrando enquanto abraçam outros abraços.
Talvez liberdade seja saber que existe prisão,
Mas que você não mora nela por que não quer.
Não me basta sentir o gosto do vento e navegar com ele,
Se o vento não me navega, não me sente,
Vê-me, apenas.
Já não acho que seja liberto não sentir.
A liberdade é fazer do sentimento morada,
E consumi-lo, sem a falta de respeito que é extinguir o que não te pertence.
Um rosto triste é um rosto disforme.
Uma lágrima é a sua poesia,
Registro de uma gota de alma.
Meus registros são desnecessários,
Prefiro registrar sorrisos,
Prefiro dançar num sorriso,
Á morar numa lágrima,
Quem tiver menos vida,
Que se lance ao léu,
Que se ancore em porto de areia.
Meu doce não se adoça com promessas,
Fabricar reações alheias é brincar com os microcosmos,
E eles são sagrados.
Danço,
E então eu descubro que sei voar,
Sempre soube.
Soube por que sempre vi o céu como se vê chão.
Sonhos são tão palpáveis quanto à realidade,
A única dificuldade é escolher com o que sonhar.
O tempo nos põe nos eixos,
Como meros peões por entre os ponteiros,
Mas o senso de tempo pode ou não ser real.
A escolha é tudo.
Eu escolho ser livre.
Esticar minhas asas,
É um exercício para cérebro.
Digo que cada dia me vejo mais livre um pouco,
Porque aquela sombra se afasta,
E me vejo nua e crua,
Sem suprir expectativas que não são minhas,
Sem tentar um apego que não me acena nem de longe.
Escolhas são a nítida forma de flertar com o destino.
Flertar com o destino enquanto danço no ar ao sustento das minhas próprias asas...
Soa extremamente atraente, não?
Dá até para ouvir o suspiro da mente.

Prato Raso

Se essa cor mesclar,
Talvez tudo se resolva.
A carência é um prato raso,
Cujo fundo enche, mas não sacia.
Um pôr-de-sol é um fim sem fim,
Pois o amanhecer furta seu brilho a cada dia,
E nessa briga se encerra uma disputa:
Os dias não têm domínio sobre o tempo.

Escravos,
Vivemos em contagem regressiva.
Á espera de um próximo rosto,
Uma face que em mistério desfigure o sentir.
Os pés afundam na areia sóbria,
E por validade indeterminada,
A fome engana o céu.
E o prato raso talvez pareça fundo,
E o sonho talvez se faça calmo,
Vulcão adormecido...

Quando o vento dobra a esquina para me encontrar,
O prato cheio fica torto.
Toda a sede se esparrama pelo chão.
A razão dissolve a lava,
E o controle é meu refúgio.
E mesmo assim o cheio era vazio,
E a morte trôpega dessa ilusão,
Difama o resto de luz.
Que venha o eclipse,
Aqui jaz o destino em suas mãos.

Tento alcançar a lua esticando os braços,
E tudo que ganho são marcas.
Na estrada da dor caminho até de olhos fechados.
O que incomoda, incomoda.
O que eu senti eu sinto.
Para mudar tudo não se muda nada.
Para ver, finge-se tapar os olhos.
E ainda hoje, o indecifrável me seduz.

O enterro das ilusões é utopia sutil.
Toda tradição é um sonífero,
Que bebo para sentir o gosto da diplomacia.
Atuar é uma benção,
O jogar é um vírus que precisa ser cultivado,
O início é apenas uma forma de conquistar o fim.
O berço corrói, condena, ou diverte?
No meu mundo, decido EU.

Poesia


Na zombaria dessa velha onda,
Sem a loucura densa do rumor sem fim.
O fio tece a teia, não a teia tece o fio.
Travessia torta,
Pavio curto,
E de errado a direito não se têm notícia.
Porque se assopra o vento nu?
Nesse dia sem começo nem fim,
Sem raiz no tronco...

Descontinue o caule que leva á flor.
Desvie o músculo se é que te dói romper,
Se é que te dói doer,
Se é que é torpe ainda essa noite no dia,
Sem dia na noite.

Agora, neste espaço de tempo que sombreia;
Sem na sombra tingir o cerco,
Conte ao pé do ouvido,
O que define o tempo como sentido?
O que define a cor como gosto?
O que é um ríspido traço de linha;
No papel sem trava,
No amor sem trova,
No silêncio que é palavra?

Mistifica-se o verso,
Sem que signifique nada no tudo,
Sem que seja exceção á regra.
Diria, sem medo nem voz,
Que se é um dia,
Que se o viva na poesia.

O sorriso

O recado deixa de ser sutil quando foge á regra,
Discreto, doce,
Apologia ao soar de um gesto.
Dançaria de cabeça para baixo,
Com o fio cortante no rosto.
Dormiria de olhos abertos,
Ausentaria da expressão o corpo.

O céu, berço envolto,
Hipocrisia como o termo do dia.
Treme na terra um rosto,
Roto, posto que de luz inflama.
Carapuça é como que véu,
Que se veste sem abrir e se despe sem sentir,
A cor não se vê se não existe.

Perspectiva,
Gosto e som embutido na imagem.
Na rua se vê um sonho,
Atropelam o ônibus...
A justificativa é um sorriso,
Que de tão grande cabe no rosto,
Cabe na vida,
Cabe na palma da mão.

Lá fora os pássaros cantam.
Mas dentro do sopro,
A cachola aguarda,
Guarda seguro o punho
Guarda o vinho antigo.

A mão toca,
O olhar conduz,
O corpo definha.
De tão grande,
A armadilha engole.
Cava a curva cova rasa,
Que curta encobre a capa.

Tão pequeno o sorriso,
Que cabe no rosto,
Cabe no gosto,
Cabe na palma da mão.

Presente

Hoje a lua amanheceu de cabeça pra baixo,
E o vento dobrou a esquina pra me trazer você.
Ritmo, poema e som.
Numa tela surrealista...
Esforçando escancarar um conceito,
Pra deixar claro o imperfeito,
Pra romancear pétalas em sol.

Quis conspirar com o infinito,
Pra prever o destino
E inventar novos nomes,
Que definissem futuro.
No contexto passado e presente expressos,
Um mero segundo difuso...

Tudo por explicar uma brecha na sombra,
Cortina sem janela...
Que o que faz da água lágrima é a presença de um rosto.
E o que faz do tempo verbo é dialogar.
Mas que venha a veia,
Pra sangrar o orgulho ao invés do amor...

Te digo que o vento me contou,
Que prever é matar de surpresa o instinto,
E hipnotizar esse saber é inexistir no jogo da analise...
Rompam-se os conceitos.
E ainda que estranho, seja espontâneo e honesto,
Sem cortes nem edições,
No eu: original,
Jaz expressa a sua impressão.



Sangria Desatada

Bailar os véus que me cercam é sempre um dom,
Por vezes, um dom que eu não tenho.
Me sobe o sangue nas veias assistir o que não me agrada,
E me convenço que isso é ser humano.
E aí vejo que nem todo mundo sente intensidade, ou pensa sobre ela.
Isso me faz sentir um diferencial em qualquer índice.
Quem quer que considere pessoas estatísticas,
Ou um rostinho bonito, que talvez sem cérebro passe pela vida sem pensar,
Não cogita a realidade pura, real, intensa, de ser o que se é.
De voar com o poder do pensamento,
E ser quem se quer ser.
E ser o que será.

Não pretendo domar o mundo,
Basta-me entendê-lo.
E por vezes, queria ser ingênua,
Para não entendê-lo tão bem.

Existe uma estrada
Que segue sozinha a lugar nenhum,
E pessoas que seguem em frente sem realmente existir.
Numa outra estrada, eu sigo.
Ela me pertence, nela eu danço canto e faço tudo se mover noutro tempo.
Nela eu existo.
Nessa estrada tramitam pessoas afins, pessoas que passaram por aqui e se fizeram presentes.
Através dessas pessoas eu construo minha história,
Com fatos e suposições.
E talvez, na breve construção que já fiz,
Saiba fortalecer a coragem,
E procurar nela a força que me falta ás vezes.
Que seja a força para seguir o que eu acredito.
Sem o estático,
Sem o rótulo,
Sem conceito.
Que seja a força para ser invencível.
Invencível a mim mesma.
Invencível ás minhas fraquezas.

Me aceito, penso, me faço existir,
Mas me cerca uma certeza, de que tudo se encaixa no seu tempo.
E é essa certeza que me faz viva.
E que me dá vontade de viver.

Queria que fosse uma certeza comum a todos,
Como uma segurança de que tudo segue seu rumo conforme se deseja.
E então tudo seria diferente.
Tudo seria sem dor.
Ninguém precisaria macular as estrelas para se fazer forte.
Sangria desatada é manchar de véu o sangue em pranto.
Agora me faço viver e não chorar,
E é aquela certeza, de que o dia amanhece belo todos os dias,
Que me imprime no rosto a vontade de sorrir sempre.
Amo, logo existo.

Amar é sentir o sol forte bater no rosto, e não franzir a testa.
O sol é o medo e a intensidade. Abrir os olhos e não piscar é lutar contra uma natureza que sempre existe na mesma forma, sempre faz as mesmas coisas e não cresce cortejando a mudança. Se a mudança for arrebatar os arredores estáticos, Seja bem vinda.
By nady

Foda-se

Foda-se a metáfora do livro aberto,
Foda-se a livre expressão de espírito.

Prometo-me ser bem mais reservada,
Para evitar o julgo, a cruz, a faca.
E lidar apenas comigo mesma na busca do meu caminho.
Simplesmente o vôo
Simplesmente a farsa,
E a nudez da dança é um desafio.
Estar nua diante do mundo,
Admitindo o que se é, sempre.

Mortifica-me o silêncio,
O calço do chão,
Com seu barulho intenso, inverso.
O passo corre no calço.
Encalço da vida, decisão do engodo.

Precisa a fôrma,
Preciso de mim,
Preciso do alguém,
Preciso do novo dia,
Sem gosto nenhum,
Para se tornar a única gota,
Som limpo,
Meu júbilo eterno.

Aqui jaz o que era ingênuo,
Com a força do tempo,
Com a força do tempo,
Com a força do tempo.

by nady

doce amargo

Doce amargo,
Gravata e terno,
Nenhuma expressão.
Mistério em lata,
Amor em prata,
Desprezo, manutenção.

E nas praças, O gosto, o rosto, sem coesão.
Na dor, o pranto marchando, Sorrindo, mancando...
Dobrando a esquina,
A moça repete, remete,
Reprime, repito: no mito o poço.
Cheio, vazio...
Morto.


Esse poço.
Que pra quem nem sente gosto,
A vida é um nada,
Sem pouco nem muito,
Que sustenta a mão aberta em punho.

A boca deixa de canto um arrombo,
Que é a cor desse povo.
Sem sentido, sem profissão.
Se numerassem os rostos,
Teríamos um novo índice:
A face é translúcida,
Nada diz á quem não vê.

Por bem ou por mal,
Eu vejo.




Sensibilizar-me, É um ato de submissão a mim mesma.

Antes Fosse

Antes fosse silêncio.
A face retoma a velha sina,
E arrebata-me a sede atroz.
Vive.
Antes fosse mistério a compactuar-me a claridade sem fim.

De cabeça pra baixo,
De peito aberto,
De caminhar quieto,
O ângulo é o mesmo.

Se transparecer o olhar,
É encarar o fato,
Assim derrepente,
Tudo se torna mais simples.
O ato é pensar...
A coragem é o risco.
Então configura a imagem,
E muda o tamanho da resolução.
Que de perto o clima tenciona a angústia,
E conjura o prazer coexistente.

Sem medo,
Aproxima o silêncio,
Para que ele possa falar.
E esqueça as estrelas mudas que estão a piscar.
Fato é fato.
O que modula meu bem,
É perspectiva.

Sem pré-confabular,
Tenho em mãos desejos e receios,
Mas quem não os tem?
Que as dúvidas sintam-se em casa,
Pois que são cautela.
Mas que não me barrem o querer,
Não estatizem a difusão de idéias.

Não vire imprecisão,
Que o que interessa é diálogo.

E seja saudade descendo o morro,
Ou vidência clamando por um decolar do tempo,
A idéia primeva resiste.
E é a intuição que me mantém disposta,
É a leitura dos passos que me faz em transe,
É o andar da roda que me faz soar.

Volta,
Que a breve sina,
É dizer aos quatro cantos que quem me faz sorrir,
É o acaso incerto...

Procure ouvir o silêncio
Andando sem pisar no chão,
Que é pra se fazer surpresa,
Na hora de chegar.

O mistério permanece.
A calma rasteja.
O vento sobrevoa o sentir,
Sem novas roseiras,
E sem novas histórias pra contar...

by nady

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A Música

A música.
A beleza simples,
Sem a morte,
A rima, a prole.
No nada: o todo.
Singelo pressuposto.

A breve fala,
Diálogo em pulso.
A entrada é saída,
A chegada é o ponto de partida.

Disseram um dia respirar ar,
E ouvir poesia.
Musa do tempo,
Som em silêncio.

Se palavras são acesas,
Se a pausa folga,
Tomada sem fio,
Mistério, ao pé do ouvido.

A dinâmica cruza no espaço,
O ritmo calça no pé,
A expressão põe na boca um sorriso.

Se dia é noite,
Ou noite é dia,
Não se sabe...

A música é música.