15.2.08

Eu te amo

Ela disse eu te amo,
Ele riu, tirou sarro.
Ela tirou o sapato,
Deu a partida no carro,
O amor debandou.

Ela nem se conformou,
Um outro amor chegou,
Amarrou o cadarço,
Deu a partida,
Amou em seguida.

O carro enguiçou,
Ele disse eu te amo,
E ela, descalça como estava,
Saiu correndo mundo afora,
Sem sequer olhar pra trás.

Eu que te pergunto

Eu que te pergunto,

O que é que você quer?

Assim como um defunto,

De cara pra colher.

O mundo é um disparo,

O cabelo desce ali no ralo,

E você de braço dado com aquela mulher.

Eu que te pergunto,

E agora José?

Você come seu feijão com arroz,

De cara feia pro meu cuscuz.

Eu dando duro no trabalho,

E você dando palestra no Rosa-cruz.

O stress ta me roendo as unhas,

E você de caso feito, fazendo picuinhas.

Eu andando de metrô,

Você de barco novo no arpoador.

Eu que te pergunto,

Como é que se faz?

Se eu no tranco só dou pra trás,

Você roda a baiana e até ela vem atrás.

Eu dou tiro no escuro,

E você com o seu osso duro.

Me deixa madura, de cara no cais.

Eu que te pergunto,

Como é que se diz?

Se eu me calo, não foi porque eu quis.

Se eu reparo, é no nome do carro,

Você gosta de chafariz.

Eu que te pergunto,

O que foi que eu te fiz?

De noite na cama é na gana,

De dia no terno, apatia.

A loira na praça é folia.

O copo no bar, poesia.


E amanhã começa outro dia...

Namora Eu

É você namora eu.
Sim, eu avião.
A última coca-cola do verão.
Quando eu passo,
Paro o trânsito,
Toca a buzina do caminhão.
O pedestre do lado diz:
"Que mulherão!"
Eu disfarço, sussurro um palavrão.

Mas você só me acha linda,
Deitada no seu colchão.
Só quando eu tô na rua,
Você segura a minha mão.

É, você namora eu.
Garota de Ipanema do Cerrado Nacional,
Quando eu passo,
Nêgo freia até longe do pardal.


Mas você só me quer mal,
Me trata feito bicho,
De viver no quintal,
Só me quer de langerie,
Unha feita, coisa e tal.

É, você namora eu.
Já te digo que tô beirando eira,
Arrumo um outro alguém,
Daqui pra sexta-feira.
De mulher a trepadeira,
Arrumo um outro alguém,
Daqui pra sexta-feira.

Cara Bonito

Era um cara bonito,
Gente fina,
Fineza é pouco pra tanta rapina.

Era um cara jeitoso,
De riso gostoso,
Tinha tanta pose que dava desgosto.

Era um cara que gostava de jogo, música, poesia,
Sabia um pouco de tudo e de tudo fazia.
Se era certo ou errado ele pouco sabia.

Mas de tanto fazer,
Tocou o fundo do poço.
Dançou com o diabo no couro,
Bradou como um touro.

E quando voltou á vida,
Queimou um cigarro,
Comprou a bebida.

E sentado no bar,
Era um cara bonito,
Gente fina,
Fineza é pouco pra tanta rapina.

Era um cara jeitoso,
De riso gostoso,
Fez tanto gosto,
Que a pose me cedeu o posto.

12.2.08

Não.


Não quero ver o silencio pairando nos teus olhos.
Essa risca de barro que te contém o cenho.
Eu quero sorrir de novo,
Falar de novo,
Cantar de novo.

Não pretendia tantas cores a correr por teus cabelos,
Os rasgos firmes no seu rosto.
Quero partir-te em trégua,
Ramificar tua pele em tantos,
Tantos outros passos...

Não se largue assim em tantos braços,
Teus braços que um dia teceram meus sorrisos,
Braços que de tanto prazer são dor enfim.
Tanto cerco de palha,
Tanto verso, migalha.

Não se vá assim sem palavra alguma,
Na raspa de todos esses anos,
Restam mãos e por demais vazios.
Tanta sede de tudo,
Tanto, tão cedo...

10.2.08

O rabo de saia

Era noite.
Era dia.
Era isso aí,
E nada se dizia.

Eram mãos dadas,
Roupas lavadas,
Os filhos de fralda,
Os lençóis enviesados,
E nada mudava.

Todas as noites de amor,
Era a rotina quem organizava.
Todos os abraços,
Era a amizade que conjurava

E um dia,
Um rabo de saia,
Passeando sozinho na rodovia,
Resgatou a sua alegria.

De lado a melancolia,
Cara a cara com a simpatia.
O rabo de saia na rodovia,
A cantada, a chamaria.

Era isso aí,
Era noite,
Era dia,
Tudo se podia.

Boemia

Então foi assim,
Ele o melhor amigo,
Ela a roupa do perigo.
Ele o cientista,
Ela arte, poesia.
Ele o cínico,
Ela um gole de absinto.

E durante os dias eles eram dois.
Cada qual no seu comício,
Na sua gana, seu trabalho, precipício.
E durante as noites eles eram um,
Sorriso, gargalhada,
Na rua enluarada,
Uma carne, uma cartada.
E na carne o desespero,
Pra quê todo o apelo?
Essa roupa de passado,
O cabelo arrumado,
O sorriso enluarado.

E no outro dia,
Ele sorria a poesia,
Ela ria, apatia.
Ele cheirava a boemia,
E ela mal se via.
Mas ele era o cientista,
Ela arte, poesia.

Ela era a boemia.
Ele sombra, agonia
.

6.2.08

Paro por aqui.

Paro por aqui, de peito aberto e punhos cerrados.
Paro de frente, pra enganar a covardia.
Paro pra não delimitar a poesia.
E é daqui, de dentro do quarto,
Que coloco o mundo nas entrelinhas.

Como é que de tanto temer se treme a voz,
Como é que se finge não ser parte de nada.
Grita vai, aposto que sabes gritar,
Sabes gritar a hipocrisia de quem gostaria de não sentir nada.
Não é todo mundo que sabe,
De dentro pra fora, o que é amar.

E justo naquela hora,
O gato comeu a língua do rato logo de cara,
E amanheceu sangrando em riso o pedaço de céu.
Como raia uma manhã vermelha,
Só estando em guerra pra saber.
Só bailando trova pra entender.

E logo quando o reflexo era convexo,
No eixo da borda, na borda do eixo...
E se ninguém soubesse de dentro pra fora?
Impossível prever meu bem.
Impossível saber.
Cada um sabe do seu porto,
E cada um somente.

Nem todo mundo transborda o vinho em palavras.
Será a literatura uma doença expressa em arte?
Se é que se pode chamar o excesso de letras literatura,
Se é que a arte é dedutível.
Será que é a arte do som que não te basta?
Será que você só sabe falar verso?

Sim você,
Você de frente pro nada,
Tentando entender como se lê devaneios alheios.
Você sou eu, tentando pensar e criar sentido.
E tentando abandonar o sentido que gosto de imprimir nas coisas.
Não se irrite,
Eu e você somos apenas humanos.

Humanos...
Essa raça infame que não sabe o que quer.
Que gosta de procurar espaço nos lugares mais apertados.
Que gosta de rasgar a seda com o que não interessa,
E calar-se com a tortura, autoflagelação.

Humanos,
Bichos únicos e diferentes,
Mesmo quando se parecem tão iguais.
Seriam os humanos passiveis de comparações?
Estatísticas, leis, alegorias,
Quem vai saber...

Ser humano,
É ser frágil, fraco, duvidoso,
Cheio de medos, travas,
Portas trancadas,
Gavetas, cimento no pensamento.
Cheio de onde, quando, como, porque,

Tanto que ninguém se entende,
Nem nada sente.

Não, mentira,
É possível sentir cada parte do corpo que te toca as mãos,
É possível sentir o ar se movendo na areia dos olhos,
É possível sentir o olhar encostando-se à pele,
É possível sentir o aqui e agora mudando de lugar,
Conforme as horas passam cavalgando relógios.
E se tudo isso é possível,
É você que não quer sentir.

Eu sou você, você sou eu,
Somos iguais ao cara do lado na mesa de bar,
Iguais aos nossos maiores inimigos também.
E nenhum de nós quer sentir nada.
Estamos todos metidos no medo da entrega.
Todos, sem exceção.
E assim ficamos leves,
Ficamos vazios.

Ficamos torpes na técnica do desvio,
Ficamos cheios de medos e preconceitos,
Cheios de igualdades.
Muitas semelhanças fundamentais,
Formas de adiar a entrega,
Fingir que existe escolha.

Tenho uma idéia,
Você finge daí que eu finjo daqui.
E se nada mudar, a gente fica bem,
E anda mais um pouco.
Cada um pro seu lado,
E sem entregar, dar nem partilhar nada,
Continuamos felizes.
Felizes e medrosos.

Felizes, vazios e medrosos...

Eu sei que por mim, continuo assim por mais alguns anos.

nadja lopes

5.2.08

O que foi isso?

O que foi isso? Alguém entende? Na verdade não há nada para se entender. E na sua fronte, o suor que desce nem amargo é. Tanta raiva pra sair de dentro, que de dentro de onde não sei. Na minha fronte o suor que desce nem amargo é. E o peito jorra tudo de tudo, para onde vai não se sabe, mas o controle que me sobe ás faces é ainda mais sagrado. Tudo que eu tenho é o sentir, mas e se nada sinto? Nada sinto dos pormenores, dos imprevistos, das noites sem fim. Nada sinto da longa estrada, o vértice, da manada de gente ao meu redor. Sinto dos sujeitos ao lado a expressão amigável do rosto. Nada sinto do som que não toca, já do som que me banha a alma sinto e canto. Sinto no meu canto. Sinto ouvindo outras vozes, que sozinhas tem tanto a dizer, tanto a sentir. Mas a verdadeira luz que me banha são os significados, que me identificam a carne viva, a pele por cima da roupa. Sim, a carne vive, aqui por detrás do meu corpo. Que de tanto gosto pulsa verbos, pulsa versos, pulsa sons. E nada de mais vivo que possa envolver o espírito, a sombra na lua, quando aparece de dia. Sinto do gosto do vento a parte mais doce. E de tantas palavras, já não tenho o que dizer.
E de tudo que me fez lagrimar durante os anos, aprendi com os desenganos. Da raiva foi o pranto, do pranto o sorriso tímido, e daí a gargalhada. Aquela gargalhada seca, cortante, amarga. Diferente do suor que me escorre a face, quando o calor é denso. Quando o sentido do verbo é intenso.
Hoje me visto dessa pele morna, da praça que de tão gasta adorna, da mente clara de que tanto idealiza o mundo. De quem não quer ficar pra ver como a dor pode povoar os olhos das pessoas. Hoje me encantam os poucos sorrisos sinceros que posso tragar. E das pessoas que oferecem sorrisos sem reclamar. Que esbanjam o que há para se dar sem doer. Todos os dias vejo novos rostos passar, muitos dos quais nunca mais vou rever, mas dos sorrisos sinceros me deixo lembrar. Quantas outras vozes não se guardam da cor, quantos outras faces por dentro não gemem de dor...
E quantas pessoas de dor não se calam? Calar-se é morrer pouco a pouco. Me recuso viver sem palavras. Nem que estas pairem na mente, absortas, singelas, envergonhadas.

Vôo

Não preciso,
Não repita,
Não complica.
A sua cabeça não pára.

Não trava,
Não cumpre,
Não divaga.
Na mente, a noite cala.

Não curva,
Não molha,
Não suja.
A beleza tá na margem.

Não supre,
Não tenta,
Não foge.
Onde acaba o rastro começa o resto.

Não curte,
Não trama,
Não sente,
Fim de papo.

E se resta um pingo de dúvida,

Sai na rua e voa,
Desenjaula,
Pousa na proa.

Vai logo,
Voa.




nada sinto.

Só sei que nada sinto,
Apenas velhos fragmentos.
Sei que preciso de tanto,
Sem esse tanto não me mexo,
Não me encanto.

Não desligo a noite porque não me sinto.
Anestesia geral,
Suprimento de absinto.
Na boa, o silêncio me acalma.
Devolve aquela rosa,
Aquele riso que me salva.

E se não fosse nada,
Eu nem saberia,
E se tudo fosse, seria.
E ainda não me sinto pulsar,
O que tinha de aventura,
Tinha de sombra na relva da loucura.

Só um amor existe?
Quero ir embora,
Nada mais me insiste.
Dores que me tiram o ar,
É que libertam o que tenho á pagar.
Cumprimentam com graça cada novo pesar.

É tudo antigo.
Como se o passado pudesse aparecer na porta da frente,
Encarando a gente de frente.
O nada de nada que me escorre á fronte,
A laia do intelecto na porta do mundo.
Quem poderia competir?
Quem poderia insistir?

Me larga na cara aquele tapa,
Vê se me acorda do sono de anos atrás
Se antes era muda agora tenho capa.
Agora sou apaixonada por mim,
E me amo num devaneio sem fim.
E, no entanto não sinto.
Não, nada.
Nada sinto.