18.3.11

Luto

O luto passou.
Luto este que deixa as algemas de lado,
Que rompe com o universo.
Que se cansa de canções.
Que se compraz nas canções.
Que deita e levanta sem sentir nada.
Que deita e levanta na dor.

A dor é infinitamente mais genuína e mais real que uma rejeição.
A rejeição é o nada, a dor a existência.
Doer é admitir que se existe, independentemente de inexistir aos olhos de quem quer que seja.
Mas a dor vem sorrateira e quando menos se espera, ela passa.
Passa deixando para trás apenas as marcas do crescimento.
As marcas necessárias do crescimento.
Como anéis no tronco de uma árvore, as marcas celebram anos de vida,
Anos de amor, de dor, de experiência.
Não poderia ser diferente.

O luto passou, a dor sossegou,
E em breve virá o mundo,
Com seus encantos e maravilhas,
Para lembrar-me da beleza e da graça de viver.
Lembrar-me da música, do sol e do riso.
Para lembrar-me ainda, que a existência compensa qualquer dor.
E que a dor é um prenúncio para dias melhores.
Que a vida, o amor, as pessoas existem.
Que eu existo, que eu amo existir,
E que a energia criativa é dominante em todos os momentos.
Uma perda nada mais é do que a forma criativa do universo de mostrar novos caminhos.

Sozinha

Sozinha.
Sozinha, como árvore, solitária como inverno.
Inverno meu.
Meu absurdo.
Absurdo, este, que mata o que me resta,
em breve não restará nada.

Em segundos, não restarão motivos,
Morrerão os sentidos,
Ficarão impassíveis de ser enganados...
Enganada, ilusão silenciosa.

Que parte do porto pra me atacar,
Que morre na alma de cada poeta.

O Sorriso

Não era um sorriso de paz,
não era um comunicado,
não era uma declaração.
Não merecia canção.
Não era tema de filme,
Jamais seria razão de viver de ninguém.

Já não era sorriso,
não era expressão,
já não era comício,
falácia, já não era.

O sorriso, nunca sorriso fora,
Silêncio, nunca sorriso fora.
Era uma contida mentira.
Uma desculpa para existir.

O sorriso, era uma saída.
Quem sorri não precisa de nada.
Quem sorri não precisa,
Não, quem sorri não precisa.

Real

Era o que restava,
Ou assim se imaginava,
O ideal,
O imperfeito.
E não, era o imprevisto,
Era o invisível,
Era o real.

Se eu pudesse ao menos ver.

O hoje e o ser

Não há nada como estar de fora da própria pele,
Cortejando maneiras de viver duas vidas no mesmo corpo.
Hoje, eu não queria ser eu.

O ser me continua, e hoje queria não ser.
O ser me denomina e me define,
E no hoje, nem o existir me viria a ser.

Seria o rastro do segundo, perseguindo as horas,
Seria um pingo na chuva que não passa.
Seria um símbolo, um acordo, o medo, o silêncio.

Seria um copo, um vazio, uma dose,
Para ser consumida, tragada, feita e desfeita.
Seria uma flor, ferina e quieta, para se desmanchar ao vento.

Hoje, não encontraria cor em nenhum ser,
Nem nenhum ser me inspiraria simpatia,
Hoje, morreria no branco e preto das minhas ideias.

O não saber

Enxergando,
Enxugando o seus rastros pelo meu corpo,
Enxotando a saudade daqui.

Varrendo campos inteiros com o olhar,
Sem colorir uma gota de som,
Sem apreender ou registrar nem um rosto.
Sem agarrar uma lua sequer.

É um vazio que não me dói,
Mas é um vazio que faz sangrar os poros.
É um vazio que carrego durante os dias,
Que alimento durante as noites.

É um não saber,
E o não saber me pinga na alma.
O não saber arrasta o fim na sola do pé.