Amar é crime?Essa pergunta me vem á cabeça depois de assistir a mais uma comédia romântica. Parece sem nexo não? Calma, eu vou explicar. Não é tão bonito quanto o filme acaba e todos são felizes, cada um com seu par perfeito, etc, etc, etc... Pois bem, na vida real as coisas funcionam um pouquinho diferentes. “Oh , não diga...”. Exato.
Pra começar entretenimento precisa de identificação. A razão pela qual comédias românticas em geral são sucesso de bilheteria, é porque exploram essa vulnerabilidade tão bela do gostar. Quando sob efeito da paixão o ser humano tem a capacidade de se mostrar em estado bruto, quase que sem defesas. Um estado bruto é livre de interferências meramente sociais. Claro que existem barreiras, de bagagem, comunicação conhecimento em comum, e todo o pacote, mas o estado convencional em que a mente funciona, sofre uma mudança. O nível da mudança determina a evolução. Se a mudança for nula, daí era só o físico entrando em cena. Se a mudança for leve, só um namorico. Se a mudança atingir níveis drásticos, já era meu bem, você está amando!
Que sejam considerados níveis drásticos comportamentos estranhos, como timidez súbita, um breve (ou prolongado) retardamento mental, falta de velocidade no raciocínio ( possibilidade descartada se o indivíduo em analise é usuário freqüente de substâncias er... ilegais!) auto-proteção excessiva (no caso de pessoas inteligentes, o mínimo precavidas ou apenas desconfiadas...) humor instável ( o que deve ser plenamente desconsiderado no caso de pessoas ‘de lua’) o chamado ‘over-sentimentalismo’ ou mesmo super-sensibilidade, ressentimentos graves, saudade insaciável e blá, blá, blá...
Onde quero chegar com esse lero? Bom, o porquê de explorar nos filmes só até o processo de se apaixonar é que o difícil é manter (“Oh... Será mesmo???”). Depois do felizes para sempre vem o amor de verdade. O que é isso afinal? Não, não se resume á vida sexual ativa, nem ao trocar de fraldas, nem status social, nem círculo de amizades, nem sogro safado, nem sogra pentelha... e não, nem apenas á junção exploratória de tudo isso. (PT!!!)
No final, o que importa é a escolha de valores e a capacidade de distinguir o grau de importância entre eles. Todas as dificuldades estão na má distribuição de prioridades e poderes, e numa fraca administração do amor. Falo aqui de qualquer relacionamento, principalmente amizade. Se todos os valores que cultivamos numa amizade fossem aplicados nas outras relações metade dos problemas estariam resolvidos. E por mais coração de gelo que uma pessoa possa ser, todo mundo na verdade só quer ser amado, e ser tratado com atenção e carinho. O errado é deixar isso escapar por entre os dedos, não importa a razão.
Amar não é crime. A sociedade e o entretenimento exploram os clichês da paixão e do sexo, por que o amor em si é um sentimento que não se reproduz através de imagens, como o desejo, o medo, a frívola alegria que provoca o riso. O amor se sente. E não existe calculo que determine quando é que se vai sentir.
E a chave é amar sem orgulho, sem os sentimentos de posse com o qual se apegam os certos e errados individuais. O interessante não é possuir, mas sim coexistir. Cuidar e se importar não é possuir. E amar, é deixar completar o ciclo de ida e volta a cada instante. É ignorar os coeficientes...
Não pretendo aqui racionalizar o amor. O problema está justamente em analisar demais, pensar demais, influir demais... Sem deixar espaço para absorver, para sentir de fato. Aproveitar o momento não é parar de raciocinar, mas raciocinar sem preconceitos. Se machucar é um risco, mas é se ferindo que se aprende a lidar com o sentir. Não falo em se atirar em precipícios, nem faço menção ao romantismo de sofrimento exacerbado. Digo apenas que viver se privando de sentir o que quer que seja, amor ou dor, é simplesmente não viver. Existem altos e baixos, mas como não se pode prever o futuro, é impossível nivelar por cima.
O crime é negar a si mesmo. Se tudo se tornar ausência de concessões, no final não sobra nada. Eliminar tudo que não é perfeito vira intransigência. Rigidez no escolher dos ventos. Nesse caso resta chegar ao fim da vida numa procura incansável pela satisfação, tendo passado pelas melhores situações possíveis, descartando-as na primeira dor, sem realmente ter vivido nenhuma no seu potencial completo. Fechar os olhos para tudo que não tem face definida trava as possibilidades do porvir. Abrir aos olhos para os erros, em vês de puni-los, concerta passos em falso e abre espaço para mudança e solução. Tudo merece uma segunda chance.