Mistifica-se o verso, sem que signifique nada no tudo, sem que seja exceção á regra. Diria, sem medo nem voz, que se é um dia, que se o viva na poesia. Poemas e textos de Nadja Lopes
27.9.08
A caixinha
Ela sentia que havia passado os últimos meses dentro de uma caixa. Uma caixinha cor-de-rosa, cheia de laçinhos, exatamente como aquelas que ela odiava ver no shopping. Ela morou nessa caixinha pequena, mínima. Por fora era cheia de frufrus, ornamentos. Por dentro um poço de ilusões. Era amarrada com utopias sutis, gracejos quase que imperceptíveis. E Ela conseguiu ser feliz dentro daquela caixinha. Conseguiu viver situações que a faziam sorrir, chorar, imaginar, absorver, cintilar, brincar, relaxar, viver, amar. E pelos bons momentos ela começou a entristecer, desesperar, desejar, compreender o incompreensível, suportar o insuportável, se iludir com idéias, desejos, vontades, abraços.
E a caixinha foi ficando menor. E por isso ela se sentia cada vez menor, menos quista, menos desejada, menos importante, menos ela. E a caixinha foi ficando menos bonita. Os laçinhos ficaram frouxos, as cores desbotadas, os quereres superficiais, os desejos apenas desejos. Mas isso era só o externo. Trancada e resumida dentro da caixinha, ela só queria ser amada. Queria ser amada por inteiro, do início ao fim, dos pés á cabeça, dos abraços aos beijos, do carinho a cegueira da posse. Ela queria ser importante, queria que tudo fosse mútuo, queria ser guardada, cuidada, abraçada, beijada, amada, queria ser lembrada, considerada, e não mantida. Mas dentro da caixinha ela tentava ser feliz, aceitava o pouco que podia ser. Dentro da caixinha ela vivia mentiras, vivia ilusões, compreendia, sorria.
Mas a caixinha foi ficando apertada. Outras pessoas foram fazendo parte dessa caixinha. Pessoas que gostavam muito de morar na caixinha também. Amavam ser limitadas, mantidas, delimitadas. E ela foi sentindo que a caixinha nunca foi dela. A caixinha era uma desculpa que ela inventou para não doer. Pra fingir que o amor que ela quer não precisa ser inteiro. E por mais que ela fosse capaz de amar, sofrer, sorrir, chorar, ficar, sangrar, e sentir tudo dentro da caixinha, a caixinha não era dela, e ela sentiu tudo sozinha. E saber disso, doía mais.
E quando finalmente ela saiu da caixinha, não sabia o que fazer. E a única coisa que ela sabia é que não queria saber de caixinhas, e não queria saber de amar.
Ela só queria ficar bem.
As caixinhas e histórias e mentiras e desejos e laçinhos, ilusões, podiam ir pro inferno, se ela apenas não sentisse tanto.
E ela sentia que odiava o amar, odiava o amor...
Na verdade, ela odiava o não-amor. Ele aparecia como um pássaro negro, sempre que amor era o que ela mais queria.
Ela cansou de amar sozinha.