24.5.05

O Silêncio

O silêncio é a base da comunicação. Estar em silêncio é comutar pensamentos. As pessoas subestimam o silêncio, transformando-o em um antagonismo anti-social. Na verdade a essência de transmitir toda a necessidade do pensamento está no silêncio, mas sua face permanece oculta para as pessoas que apenas analisam palavras.
Sobrepor-se ao silêncio é um erro, sem ele a comunicação humana seria repleta de falhas. Seria impossível manifestar pausas e aproveitar o momento. Se mesmo com o silêncio operando a mil nas sombras na mente ainda nos é limitado o entendimento do mundo na sua verdadeira face, como seria pensar e não ter tempo para desenvolver todas as analogias presentes no cérebro?
Análise não é sentimento, é a racionalização do sentir. Pensar sempre na
negação das paixões, é considerá-la toda e qualquer sensação ou reação que provoque o entorpecimento momentâneo (ou não) do funcionamento mental. Tenho por paixões os momentos em que o tempo para e a contagem dos segundos parece dobrar. Os sentidos aguçam toda a intensidade do silêncio nessas horas, e concentração atinge um outro parâmetro funcional. Fugir a esses momentos através da lógica é transformar vida em estatística.
by nady

Libertário

A última ceia no seio da vida.
E na ausência de desfeitas certezas,
Existem apenas definições...
Não mais devaneios vitalmente mortais,
Não mais sensações ou desejos,
Nada de rostos-reflexo nessa água tão suja.
Correção da errata: sonhar.

Sopra este vento sem causa e sem dor
Á seduzir cada mar sem pedir nada em troca,
Não se cortejam mais estrelas serpentes no ar...
Querer é romper e causar,
Domar a incerteza no ar,
E competir com uma estrada infinita
Que faz a curva nesta torre de marfim.

Imagens de tortas belezas,
Rompantes em chama...
Surpresas deveras dormentes,
Sóis no gelo tórrido da mente,
“Aqui jaz um sorriso...”
Que esteja no tempo a dançar,
Como estrela serpente pairando no ar,
Flamejando o passado recente,
Absorto na água do olhar.

Recoberta íris,
Que esteja a luz a contar histórias,
Tescer memórias,
Arfar suspiros...
E que sejam histórias carregadas de asas
Desprovidas de amores,
Satirizando os contos de fadas.

Voam idéias...
Discretas armas,
Sutil defesa,
Cerrado o cerco.
Vil o tempo,
Calçada a alma,
Armado o cenho.
Perfeito sonho.
Cintila a calma,
Por triste queda...

Em azul-terra,
Está vencido o credo,
Num céu marrom,
No qual pássaros perderam asas
Por não voar.

E vence acesa garra,
Que aqui jaz morta.
Sem brandos sóis,
Sem indefesas luas.
Voam armas,
Por sutil cerco,
Nessa vil calma.
E armado o sonho,
Cintilante a queda...

Que reine paz,
Em todo credo e alma,
Para todo azul e cinza céu.
Porquanto mesmo que sem asas
Quero voar...


by nady

1.5.05

Estar

Estar é solar em destinos iguais,
Encontros divisos, sorrisos.
Desenhos...
Queria que cada céu estrelado fosse um desejo,
Queria que cada gota de água fosse em jarro de barro...
Um toque na noite se toca,
Tocam-se as luas num só universo.
Só que num universo indeciso...
Que fossem as noites quereres concisos,
Que fossem os dias concretos sorrisos,
Que fosse saudade e não um gostar difuso.
Ausente, indiferente, única barreira existente.
Morte ás barreiras...
Ou será morte aos sentidos ainda dormentes?
Que saiam sentimentos dessas ondas,
Morrendo talvez...
Solando,
Querendo,
Sonhando um talvez...

by nady

Por Isso Eu Canto

Prefiro ter aos pés,
Esse som de inverno
Maquiando cada gesto,
Camaleando por estes vales
Como que brisa quente bafejando solares.
Pintando estes teus olhares...

Um violão,
Uma voz,
Um sorriso,
Um beijo,
Um violão,
Uma voz.

Prefiro ter aos pés,
A relva doce
De um caminho incerto,
Do que caminhar a passos de concreto,
Calculando cada gesto,
Estatizando esta prisão de ferro.

Um silêncio,
Um grito,
Um passo.
A apagar o grito,
Passos tímidos,
E coisas que só uma boca é capaz de contar.

E por isso eu canto:
Prefiro ter aos pés,
Este som de inverno...
E maquiar cada gesto,
E camalear pelos teus vales,
E sussurrar como que brisa quente a bafejar solares,
Canto querendo pintar estes teus olhares...

by nady

Pulsar

Angústia
O dragão em você pulsa...
Que não há pra onde ir,
Que não há lugar pra sentir em casa.

Que solidão não tem parâmetro,
Não precisa estar sozinho
Não precisa estar... só ser.

Que raiva não precisa de jaula.
Que rancor não alimenta ódio.
Que não precisa de sapato,
Pra pisar no lugar certo.

O furo na história não é de ninguém,
Nem o livro aberto na página errada,
Mas pra onde o lucro vai todo mundo sabe,
Gritar é escolha.
Calar é condição de existência.

Pulso.
Que as suas manias não tem importância.
Que só as palavras são suas,
Voz.... pulso.
Que navalha na língua não mata, mas fere...

O pulso cala,
Que não há lugar pra revolta.
Que a justiça jaz na consciência.
Que flor tem espinho
Que ideologia é mentira.
Que corre sangue nas veias
Mas corre sangue no chão.
Que criança chora,
Mas não é por perdão
Que ganhar é perder,
Perder é poder.
Ganhar é sofrer.

Que fachada não é burguesia.
Que voz é voz,
Que sangue é sangue
Mas você não é você...
Você é o que vê
Que parâmetro não se mede
Felicidade não se molda
E paz, se procura.
A paz que não existe aqui dentro.
Muito menos lá fora.
Que eu quero agora.
Que os sentidos são nulos...

by nady

Sol

Tenho um sol piscando estrelas,
E ando glissando cada segundo em milésimos.
Se queres soprar ao vento leve forte vento,
Cala esta pontada de chuva de verão e de inverno.

Admira-se o céu a possuir cada sol,
Admiro-me possuir cada diferente dia como único dia.

Rompe-se o tejo,
E acho-me na cidade mais bela,
Levitando por estrelas e constelações.
Verdemente me consola este tempo azul...

Correr e voar,
Talvez escapar e voar,
E no bater de portas tão vermelhas,
Tenho todo o poder a escorrer escolha.
Talvez o nada queira correr e voar.
E não fossem os pretos girassóis em brasa,
Perderia-me por entre gélida paz e estonteante cor.

Romper com cada regra em vida,
E deixar que seja morte a remediar.
Deixar que não existam erros,
Andar sem economizar espaço,
Amar sem teorias da conspiração,
Crescer por todas as hastes sem delimitar esquinas,
Passar por todos os templos e não deixar vestígios,
Ser um desafio vivo para cada inspirar,
E poder desafiar os limites da imposição.

Existir é confabular becos sem saída,
E trazer o final à tona.
Que tenha fim tudo que existe,
Mas que restem os resquícios da memória vivos a pulsar na mente.
Pois é nela que se guardam as mais raras fotografias e os mais belos altares.
Que sejam altares para si mesmo,
Valorizando cada pedaço de força e fraqueza,
Fragmentando idéias e incompatíveis sois.
Que tudo se entenda como mundos afins,
E memórias sejam novas histórias a serem contadas.

Dores seriam espaço para novos silêncios,
Se fossem silêncios luto a chorar.
E calma seria ouvir e querer calar,
Se não existisse nem vontade nem pensar.
Já não quero calar os espaços-silêncio que pairam no ar.
Quero gritar a contida essência do ser ou não ser,
Que tudo apenas seja!
Condenem-se a si mesmas as estáticas tradições,
Se anulem e fechem os caminhos sem ramificações,
Não se pode deixar que o externo domine o interno.
Afinal quem decide o destino mora aqui dentro,
Governa o meu microcosmo,
E transcende as expectativas de outros mundos...

Merecer outras praias e dias é dialogar.
Transformam-se épocas inteiras em segundos que se valem por séculos.
E dias inteiros são apenas um só sentimento no final das contas...
A intenção não é nada sem a intensidade desejada,
No final só importa o que foi.
Essa regra se adequa a todos os mundos...

Chega do eruditismo barato de todos os tempos,
Nas chagas das ações repetidas em tons diferentes,
Chega de dançar conforme a música,
Que seja o que for contanto que seja completo.
Que os erros sejam sempre calculados medidos e ignorados.
Não se pode mais ser sem querer ser.
Não se pode mais anular facadas através de desculpas.

Que os erros sejam sempre erros, as falhas sempre falhas,
As intenções interrompidas meros sonhos,
E que a vida se transforme numa roda inflexível,
Arrotando humanidade e devorando a fragilidade.
Sensibilidade é apenas uma faceta do destino,
Dizimada por indefesas lágrimas vãs...

Seriam vidro se não fossem reais as dores,
Seriam água se não fossem castanhos olhos,
Seria paixão se não fosse amor-paixão,
Nada é incondicional enquanto dura.
Que sejam seguros os becos escuros no meu soluçar..
E que tudo se transforme,
Mesmo que disforme,
Em qualquer definição concisa,
Para que sejamos todos um diferencial em si,
Mesmo que desinteressante glória,
Mesmo que vã filosofia,
Destoem os sinos e sejamos felizes,
Enquanto não houver equilíbrio entre individualismo e possessão,
Existirão infindos conflitos nos mares e sois...
Que nada seja incondicional enquanto dure.
By nady




Semi-análise

Semi-análise disforme
Que segue sem passo,
Ao longo do tempo,
Que morre no meu sentimento.
A calçar a alma embaraçada,
Que fere-se ao partir-me remota,
E solve o silêncio que canta meus medos.

Sozinho encantas a sombra,
Que cala o sentido da alma,
Senzala sem fim...

Carícia que faz a curva,
Deixando-me turva na água que corre.
Nos rios avança,
E morre na alça sorrindo disforme,
Dorme acordada querendo viver...

Me tenha sorrindo, me tenha chorando,
Me tenha achando, querendo, morando,
Mas saiba que o tempo me faz sussurrar.

Me queira, me saiba,
Me entenda, me faça sonhar,
Para que não se faça receio,
E não se faça desejo,
E não seja segredo a nos apartar.

Que tenhas um corte sangrando na pele,
Tecendo uma aranha,
Descendo uma laje sem escalar.
Um gato lagarto domina o espaço e o faz pernoitar.
Que seja cereja na calda escalda,
Causando o texto, sangrando o luar...

Me deixa, esquece,
Estremece a lua no mar...
Me beije, deseje,
Sorria, abrace,
Enlace o segundo.
E o transforme,
Em uma semi-análise disforme.

Que siga sem passo ao longo do tempo,
Que morra no meu sentimento,
A calçar a alma embaraçada,
Que fira-se ao partir-me remota,
E solva o silêncio que canta meus medos...

Sozinho,
Encantes a sombra que cala o sentido da alma.
Senzala sem fim...
Senzala sem fim...

by nady

Poema sem título

Ver com os mesmos olhos cada mesmo sonho vão,
Ter com o mesmo gosto cada velho tempo e som,
Viajam as nuvens, viajo no céu.
Reflexões introspectivas querendo romper-se ao mundo,
Que se deixem levar em tensos sorrisos!
E aliviar cada impulso indeciso,
E observar cada linha entre linhas.
Que seja improviso, modulando, sanando.
Que pise no fundo do poço, flutue, perdure, perfure,
Não ande!
Tropece, escorregue, levante,
Conceitos nada são se retrógrados.
Estabilidade nada é senão algema sombria e lenta.
Simulando sentidos em cores,
Texturas em flores.
Interferências, rancores...
Tic tac tic tac
Sem nada que passe transforme, reforme...
Sem o tudo que move e comove.
Seja um tudo no nada, sem massa,
Seja a morte a cavalo dançando regressa,
Ou a vida passando dormindo avessa...
Na ausência de impulsos nos sonhos,
As relações dispersas serão sempre as mesmas.
E talvez um poema, sem título, sem graça,
Atraia uma traça, faminta e sedenta...
E corroa a essência,
Arrematando mais um ponto,
Considerando mais um silêncio,
Transformando mais um tédio em segundo...
Ou seriam minutos?
No reflexo desta autocrítica reversa:
Seja tudo ou nada,
Seja indomada certeza,
Seja entorpecente beleza,
Mas rompa com o conceito poema-ritmo-som,
Gritando sem rimas...
Mas amplificando na vontade, a voz.
Mas um fim se arreda e carrega um adeus.
Que seja adeus aos deuses,
Mas não a vida,
Mas não a morte,
E sim á escrita.
Minto...
Abandonar os versos eternos,
É encher de sombras o ar que respiro...
Que fazer sem a sutil linguagem do calculo?
Prefiro calar-me.
Minto...
Calar é desintencionar o ouvinte.
E na verdade pretendo reinar no improviso,
Matar o conciso indeciso do meu pensar,
E reconquistar uma única platéia infinita.
Que jamais durmam os versos,
Pois que apenas existem num outro universo.
Universo meu que pulsa e respira,
Almejando adentrar no teu universo...
by nady