Nem sabia mais o que dizer,
Quando tudo se muda assim de lugar e não há mais o que fazer.
Era um aperto que simulava medo,
Um sentido sem sentido em cada cerco do segredo,
Uma loucura, vértice, amargura,
De tanto se voltar de pouco em pouco.
Era um nada, de tudo um pouco,
Cada dia um outro sopro.
Que tudo fosse diferente,
Fácil, atraente, simples, competente.
E o nada não fosse tão ardente,
E a vontade não fosse de repente.
Um berço, cerco, torturante,
O medo uma corda lacerante,
A volta uma curva no semblante.
A força que me atravessa o corpo,
É alívio pra dizer que a vida existe,
E a coragem que me carrega pelos dias,
Me calça, flutua.
Mas o nada está sempre ali fazendo margem,
Dizendo que o resto é resto e dele não se parte.
E não é de todo o desperdício,
A mão que aperta a fonte do sacrifico,
E se não tivessem que provar nada pra ninguém,
O que seria do orgulho, do amor, da morte, vida?
E se não tivesse que provar nada pra si mesmo,
O que seria a voz do medo marcando porto na beleza do rosto?
Se não fosse o nada na porta da partida,
Não seria simples gosto a despedida.
E a liberdade que corteja cada parte do ser,
É a condição que mescla os raios do amanhã,
Que não existe nada que faça essa nuvem mudar de lugar,
Por que leva tempo pra crescer e perceber,
Que tudo muda,
E é assim que deve ser, doa a quem doer.
Esse é o medo que me banha e gasta,
Essa é a dor que me abraça.
Mudar e ficar de fato um porto,
Um pedaço, afago,
Que do agrado, não tem mais ilusão.
Uma realidade que jaz sem fantasia,
E a heresia do medo aqui a encarar a descrença,
Vestida com toda a sua decência,
Vestida com o seu desapego.
Tiro de dentro o que me consome,
E espero que fique sem fome,
Cansado do esperar,
Ali, sentado em outro lugar.
E só espero que o certo seja sempre óbvio,
O correto um peito aberto,
A coragem condição de existência.
Para que não sejam fardos a se carregar sozinhos,
Com seus medos e segredos, dependências e necessidades.
Para que sejam peças completas,
Para que cada um seja inteiro.
E assim de frente pro mundo,
Colocando-se em jogo,
Sentindo a vida, absorta e solta,
Levante com toda a sua poesia,
E faça sentido outra vez.
Nadja Lopes
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