Se não existissem dias, noites, poemas..
Se não conjurássemos a lua em nossos olhares,
Se a morte viesse com data marcada,
Se as idéias tivessem endereço, morada,
Se o tempo não fosse assim tão direto,
Se as pernas fossem tão curtas que não pudéssemos andar,
Então tudo seria diferente.
Mas a lua faz parte de todas as noites,
O sol parte de todos os dias,
E as idéias ainda são convexas.
Nossas pernas, mais compridas do que gostaríamos,
Assim como tantas outras coisas que assustam, que desafinam.
Mas o risco banha o mundo,
E sem este, mundo não há.
Se as idéias não têm endereço nem hora marcada,
Tampouco as escolhas partilham do mesmo privilégio.
As escolhas são dispersas, calculáveis, quietas.
Basta um resto de segundo pra decidir o fim ou o fundo,
O rastro ou o mundo.
As linhas retas são agora dispersas.
Nossas portas residem abertas.
A escolha escapa pelos poros:
Larga-se o resto de fé que guardava o passado.
O futuro é incógnito, mas a escolha é fixa.
As decisões arrastam anos, mas vêm pra ficar.
As decisões refletem anos, na lua do meu olhar.