6.2.08

Paro por aqui.

Paro por aqui, de peito aberto e punhos cerrados.
Paro de frente, pra enganar a covardia.
Paro pra não delimitar a poesia.
E é daqui, de dentro do quarto,
Que coloco o mundo nas entrelinhas.

Como é que de tanto temer se treme a voz,
Como é que se finge não ser parte de nada.
Grita vai, aposto que sabes gritar,
Sabes gritar a hipocrisia de quem gostaria de não sentir nada.
Não é todo mundo que sabe,
De dentro pra fora, o que é amar.

E justo naquela hora,
O gato comeu a língua do rato logo de cara,
E amanheceu sangrando em riso o pedaço de céu.
Como raia uma manhã vermelha,
Só estando em guerra pra saber.
Só bailando trova pra entender.

E logo quando o reflexo era convexo,
No eixo da borda, na borda do eixo...
E se ninguém soubesse de dentro pra fora?
Impossível prever meu bem.
Impossível saber.
Cada um sabe do seu porto,
E cada um somente.

Nem todo mundo transborda o vinho em palavras.
Será a literatura uma doença expressa em arte?
Se é que se pode chamar o excesso de letras literatura,
Se é que a arte é dedutível.
Será que é a arte do som que não te basta?
Será que você só sabe falar verso?

Sim você,
Você de frente pro nada,
Tentando entender como se lê devaneios alheios.
Você sou eu, tentando pensar e criar sentido.
E tentando abandonar o sentido que gosto de imprimir nas coisas.
Não se irrite,
Eu e você somos apenas humanos.

Humanos...
Essa raça infame que não sabe o que quer.
Que gosta de procurar espaço nos lugares mais apertados.
Que gosta de rasgar a seda com o que não interessa,
E calar-se com a tortura, autoflagelação.

Humanos,
Bichos únicos e diferentes,
Mesmo quando se parecem tão iguais.
Seriam os humanos passiveis de comparações?
Estatísticas, leis, alegorias,
Quem vai saber...

Ser humano,
É ser frágil, fraco, duvidoso,
Cheio de medos, travas,
Portas trancadas,
Gavetas, cimento no pensamento.
Cheio de onde, quando, como, porque,

Tanto que ninguém se entende,
Nem nada sente.

Não, mentira,
É possível sentir cada parte do corpo que te toca as mãos,
É possível sentir o ar se movendo na areia dos olhos,
É possível sentir o olhar encostando-se à pele,
É possível sentir o aqui e agora mudando de lugar,
Conforme as horas passam cavalgando relógios.
E se tudo isso é possível,
É você que não quer sentir.

Eu sou você, você sou eu,
Somos iguais ao cara do lado na mesa de bar,
Iguais aos nossos maiores inimigos também.
E nenhum de nós quer sentir nada.
Estamos todos metidos no medo da entrega.
Todos, sem exceção.
E assim ficamos leves,
Ficamos vazios.

Ficamos torpes na técnica do desvio,
Ficamos cheios de medos e preconceitos,
Cheios de igualdades.
Muitas semelhanças fundamentais,
Formas de adiar a entrega,
Fingir que existe escolha.

Tenho uma idéia,
Você finge daí que eu finjo daqui.
E se nada mudar, a gente fica bem,
E anda mais um pouco.
Cada um pro seu lado,
E sem entregar, dar nem partilhar nada,
Continuamos felizes.
Felizes e medrosos.

Felizes, vazios e medrosos...

Eu sei que por mim, continuo assim por mais alguns anos.

nadja lopes