5.2.08

O que foi isso?

O que foi isso? Alguém entende? Na verdade não há nada para se entender. E na sua fronte, o suor que desce nem amargo é. Tanta raiva pra sair de dentro, que de dentro de onde não sei. Na minha fronte o suor que desce nem amargo é. E o peito jorra tudo de tudo, para onde vai não se sabe, mas o controle que me sobe ás faces é ainda mais sagrado. Tudo que eu tenho é o sentir, mas e se nada sinto? Nada sinto dos pormenores, dos imprevistos, das noites sem fim. Nada sinto da longa estrada, o vértice, da manada de gente ao meu redor. Sinto dos sujeitos ao lado a expressão amigável do rosto. Nada sinto do som que não toca, já do som que me banha a alma sinto e canto. Sinto no meu canto. Sinto ouvindo outras vozes, que sozinhas tem tanto a dizer, tanto a sentir. Mas a verdadeira luz que me banha são os significados, que me identificam a carne viva, a pele por cima da roupa. Sim, a carne vive, aqui por detrás do meu corpo. Que de tanto gosto pulsa verbos, pulsa versos, pulsa sons. E nada de mais vivo que possa envolver o espírito, a sombra na lua, quando aparece de dia. Sinto do gosto do vento a parte mais doce. E de tantas palavras, já não tenho o que dizer.
E de tudo que me fez lagrimar durante os anos, aprendi com os desenganos. Da raiva foi o pranto, do pranto o sorriso tímido, e daí a gargalhada. Aquela gargalhada seca, cortante, amarga. Diferente do suor que me escorre a face, quando o calor é denso. Quando o sentido do verbo é intenso.
Hoje me visto dessa pele morna, da praça que de tão gasta adorna, da mente clara de que tanto idealiza o mundo. De quem não quer ficar pra ver como a dor pode povoar os olhos das pessoas. Hoje me encantam os poucos sorrisos sinceros que posso tragar. E das pessoas que oferecem sorrisos sem reclamar. Que esbanjam o que há para se dar sem doer. Todos os dias vejo novos rostos passar, muitos dos quais nunca mais vou rever, mas dos sorrisos sinceros me deixo lembrar. Quantas outras vozes não se guardam da cor, quantos outras faces por dentro não gemem de dor...
E quantas pessoas de dor não se calam? Calar-se é morrer pouco a pouco. Me recuso viver sem palavras. Nem que estas pairem na mente, absortas, singelas, envergonhadas.