9.10.07

Relógio

Cada dia eu me sinto um pouco mais livre.
E me vejo destrancando uma algema de cada vez,
Cada hora me seduz mais um pouco...
A direção agora é uma incógnita novamente,
Um algo a ser decifrado,
Sem parâmetro,
Sem correntes,
Sem comparações,
Sem um rumo pré-calculado a lugar algum,
Lugares que já foram tristes não chamam meu nome.
Não me atrai a velha brecha na porta,
Não me chora saudosismo barato,
Nem culpas disformes por ver o reto na linha torta.
Sinto o vento gelado bater no rosto,
E ele tem gosto de aventura...
Não arrisco tanto,
Na minha terra o incerto é um prato vazio junto com a sensação de barriga cheia,
Prefiro do meu jeito,
Mesmo que não seja nada de jeito nenhum...
Prefiro as minhas asas podendo voar,
Do que tê-las sangrando enquanto abraçam outros abraços.
Talvez liberdade seja saber que existe prisão,
Mas que você não mora nela por que não quer.
Não me basta sentir o gosto do vento e navegar com ele,
Se o vento não me navega, não me sente,
Vê-me, apenas.
Já não acho que seja liberto não sentir.
A liberdade é fazer do sentimento morada,
E consumi-lo, sem a falta de respeito que é extinguir o que não te pertence.
Um rosto triste é um rosto disforme.
Uma lágrima é a sua poesia,
Registro de uma gota de alma.
Meus registros são desnecessários,
Prefiro registrar sorrisos,
Prefiro dançar num sorriso,
Á morar numa lágrima,
Quem tiver menos vida,
Que se lance ao léu,
Que se ancore em porto de areia.
Meu doce não se adoça com promessas,
Fabricar reações alheias é brincar com os microcosmos,
E eles são sagrados.
Danço,
E então eu descubro que sei voar,
Sempre soube.
Soube por que sempre vi o céu como se vê chão.
Sonhos são tão palpáveis quanto à realidade,
A única dificuldade é escolher com o que sonhar.
O tempo nos põe nos eixos,
Como meros peões por entre os ponteiros,
Mas o senso de tempo pode ou não ser real.
A escolha é tudo.
Eu escolho ser livre.
Esticar minhas asas,
É um exercício para cérebro.
Digo que cada dia me vejo mais livre um pouco,
Porque aquela sombra se afasta,
E me vejo nua e crua,
Sem suprir expectativas que não são minhas,
Sem tentar um apego que não me acena nem de longe.
Escolhas são a nítida forma de flertar com o destino.
Flertar com o destino enquanto danço no ar ao sustento das minhas próprias asas...
Soa extremamente atraente, não?
Dá até para ouvir o suspiro da mente.

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