9.6.06

O Hoje

Hoje amanheceu um dia meio feio,
Melancólico, nostálgico, saudosista.
Saudade de pessoas que não conheço,
Dias que nunca vivi,
Histórias que eu queria saber de cor,
Futuros próximos que eu tenho vontade de decifrar...

"Alguém aí no chão me explica, por favor..."
Como é que funciona essa máquina da vida?

É rompendo os dias que me sinto completa,
E como é que o hoje se encontra tão vazio?
Amanhã será um novo céu,
Com todas as horas pulsando de um jeito inédito,
Tudo mesclado em analogia.
Acho que às vezes as comparações estragam,
Em vez de original, uma mera frase vira cliché,
Um segundo som, segundo aviso,
Segundo plano.

Sinto subir no peito um verso,
Ele me rasga em duas partes,
Uma é livre e espontânea,
A outra é prisão.
O mundo gira ao contrário,
E o silêncio é nulo.
Pergunto-me porque será nulo agora
Se já não era antes de tudo voz...
Minha voz, interna, sendo dissimulada,
Cabível, compatível, conformada.

Será que o hoje poderá ser novo de novo?
Será que a análise não irá corromper o verso?
Queria que tudo fosse claro,
E tudo o é.
Que mais me rói o gosto amargo desse trago?
Que mais me dói no verso desespero?
Mistério esse que sem mistério se reparte.
Reparto-me em duas partes
Sem escolher em nenhuma auto-definição.

Eu amo sonhar e viver e correr e dançar e voar.
Mas será um dia qualquer o amar por amar?
E essa angústia de saber exatamente o que quero,
Delira-me uma lágrima em corrosivo laço.
Que raio é viver sem saber...
Que digo por saber e não viver?
Porque previsível é um traço numa tela,
Mas uma tela imprevisível não é necessariamente uma tela sem traço;

Corro...
A velocidade alcança,
Vejo-me voar.
Vejo-me querer poder...
E me pego querendo saber,
Querendo ver além do que posso escolher.

O dia amanheceu torto por um motivo qualquer,
E o mundo me disse não sem explicar por que.
Eu moldo meu chão como quero,
E os obstáculos se dobram á minha vontade.

Multiplico o desdém reverso de tramitar beleza sem medir razão,
Mas não me leia como um sorriso qualquer,
Minha alma tramita em sentidos diversos.
Não quero ser apenas outro rosto, apenas mais um corpo.
E o mundo que coloque as cartas na mesa,
Se quiser jogar comigo...
Do contrário, serei mais um problema sem resolução,
Mais um mistério que a ciência ignora,
Mais uma ausência silenciosa.
Digo que já não tenho medo.
O medo se esvai sempre que confio em mim mesma.
Pela confiança, me emancipo do medo.

Deixa-me voar,
Trancar um pássaro na gaiola é cortar suas asas.
Deixa-me viver...
A cada dia as palavras e o silêncio são mais bonitos,
Porque agregam mais significado.
Cai na tenda dos sonhos,
Onde cada segundo é mais intenso,
E onde planos paralelos perdem qualquer brilho.

O dia é um sopro qualquer,
Que quando sem começo meio e fim alavanca o senso.
Resoluções forçadas exalam utopia,
Mas tudo se encaixa,
E na hora certa,
O pulso se liberta.
E não existem perdas e danos no calçar das memórias,
Tudo é lucro.
E a liberdade não é a falta de apego,
Não é a condição do esquecimento,
E sim a flor do amor próprio, gentil e sincero,
Sem egoísmo...
Sem ilusão.

E tudo por que o amanhã é incerto,
Mas é extremamente atraente e sedutor.
A ausência de medo é a existência de força.Minha força...

Um comentário:

Anônimo disse...

Eu entendi. Mas só porque eu sou doido tb! rsrs